A culpa dos souzas*

Antero Greco

17 de outubro de 2010 | 11h17

O futebol precisa de bodes expiatórios, como em tantas atividades na vida. As grandes derrotas esportivas exigem punições exemplares, alguém deve ser sacrificado para compensar a frustração coletiva. E é sempre mais fácil concentrar a culpa num indivíduo, para que se tenha a sensação de que houve justiça. É estranho, mas é assim.

Alguns exemplos? Vamos lá. Barbosa carregou nos ombros, até a morte, a culpa pelo Maracanazo de 50. Toninho Cerezo foi marcado pelo passe errado que resultou no segundo gol de Paolo Rossi contra o Brasil em 82. Roberto Carlos recebeu execração pública porque ajeitou o meião no lance do gol de Henry, em 2006. Felipe Melo voltou para casa como o vilão do Mundial de 2010, pela expulsão contra a Holanda. Intolerância que vira cicatriz e faz estragos.

O filme velho, que se repete a toda hora, entrou em cartaz de novo no Parque São Jorge. Torcedores do Corinthians elegeram Souza para canalizar a tristeza e a irritação por um ano especial que ameaça passar em branco, sem nenhum troféu. O centroavante reserva, que entra de vez em quando, virou alvo da amargura alvinegra. Como se fosse um judas a ser malhado em sábado de aleluia, grupo de justiceiros esteve a sua procura no treino de sexta-feira.

Por precaução, faltou ao trabalho, e assim limitou o clamor popular a xingamentos, faixas e pedidos para que seja mandado embora. Como se sua saída venha a ter o dom de parar a queda do time no Brasileiro. O direito de protestar é legítimo, não fosse a dose de violência que carrega. Há quem acredite nesse tipo de comportamento, por entender que apenas assim as mudanças ocorrerão. Pena que muita vezes escolham alvos errados, ou mais fracos. A Fiel tão generosa mostrou que tritura ídolos – como já aconteceu com Rivellino e Edilson. O que não fará, então, com um Souza da vida?

Souza jamais entrará para a galeria dos grandes do futebol, embora tenha sido artilheiro da Série A de 2006, com 17 gols pelo Goiás. É apenas mais um dos milhares de atletas esforçados, limitados, que vivem momentos de brilho, despertam atenção e depois caem na vala comum. Fazem o que podem, e em geral não é grande coisa. O futebol é feito mais de souzas do que de pelés e ronaldos – assim foi, assim será. Senão, como ficariam em evidência os craques?

Souza não tem culpa nenhuma da fase ruim do Corinthians. Aliás, não tem culpa alguma de ter desembarcado lá. Trata-se de um profissional que se sentiu atraído por uma proposta de trabalho tentadora. Se não correspondeu, é outra história. Errou quem o contratou e o manteve no elenco, quem paga salário supostamente alto – e a mim sinceramente não interessa quanto recebe. A cobrança, as críticas devem ser feitas para os donos da bola, para aqueles que indicam jogadores e lucram, para os que manipulam o sentimento do torcedor.

Alguém se coçou e pediu explicações, no Corinthians mesmo, para apostas como Sebá e El Tanque, para ficar em casos nem tão antigos? O que dizer do Palmeiras, que já teve astros do quilate de Darinta, Bizu, Buião, Ricardo Boiadeiro, Carlos Castro… Você lembra de algum deles? Foram amaldiçoados por várias gerações, a maioria sumiu. Mas se safaram impunes os gênios que os trouxeram. Pior: sabe-se lá em que termos foram as negociações, quanto dindim dos clubes consumiram.

Os souzas existirão sempre no futebol. A maioria dura pouco, apesar de todo dia brotarem outros e outros e outros. Não acabam nunca. Nesta etapa decisiva, fará melhor o corintiano se concentrar bons fluidos e torcer para que Ronaldo cumpra a promessa de comandar a reação até o título. E não custa nada fazer uma promessa pra São Jorge pedindo que o Fenômeno não se machuque mais uma vez.

Quem é Martelotte? Como quem não quer nada, o interino ajeitou o Santos, que ressurgiu e já faz sombra a Cruzeiro, Flu e Corinthians. Se passar pelo São Paulo, outro que se aprumou com Carpegiani, será um tormento e fará o fim do campeonato ter grandes emoções. Tomara.

(*Coluna publicada no “Estado” de hoje, 17/10/2010)

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