A decisão é hoje*

Antero Greco

27 de junho de 2012 | 11h40

Se não você ainda ouviu, vai ouvir logo, que hoje à noite começa a primeira parte de um jogo de 180 minutos válido pela final da Taça Libertadores. O lugar-comum em geral faz sentido, porque são duas chances para apurar o campeão continental. Mas soa falso quando se trata de duelos do Boca Juniors contra times brasileiros. Nesses casos, a história mostra que, para os patrícios botarem a mão no troféu, é preciso garantir resultado folgado em Buenos Aires, por coincidência local frequente do primeiro confronto.
 
Aconteceu assim com Cruzeiro (1977), Palmeiras (2000), Santos (2003) e Grêmio (2007). Nenhum deles se deu bem por lá, nenhum dos quatro, depois, deu a volta olímpica em casa. Em todas aquelas ocasiões, a festa ficou para os hermanos. A exceção foi a decisão de 1963, em que o Santos ganhou a primeira, no Maracanã, e repetiu a dose dias depois em La Bombonera.
 
Calma, amigo fiel, não se desespere! Quem me concede a honra de ler com regularidade as crônicas que escrevo aqui e no blog sabe que não sou obcecado por cifras nem curiosidades estatísticas. Peguei birra delas. Para muita gente, os números viraram verdades absolutas, regras imutáveis do destino, entidades divinas. Sob aparente rigor científico, não se levam em consideração fatores imponderáveis, um deles – pra mim, o maior – a capacidade de improvisar, e de errar também, dos jogadores. Os seres humanos ainda decidem o jogo.
 
Então, pergunta você, por que o alarme nos parágrafos iniciais? Recorri a fatos do passado para dizer que o torcedor tem de preocupar-se, caso o Corinthians não vença como visitante. A tarefa da semana que vem no Pacaembu vai tornar-se árdua, se der empate nesta quarta-feira; e bem delicada, se a turma alvinegra voltar com derrota.
 
Porém, nada de descabelar-se. Minha esperança, diante de alternativas menos radiantes, se baseia na falibilidade (parece “titês”) dos algarismos. Como não são imutáveis, nem regras fixas, servirão de estímulo no desafio derradeiro. E poderão ser derrubados. Desconsolo só em eventual surra, mas das bravas, por três ou mais gols de diferença. Daí, sim, só apelando para São Jorge.
 
O bom senso indica que se desenhem vários cenários, sobretudo porque se fala de Boca Juniors em sua décima final (igualou recorde do Peñarol) e com 6 títulos na sacola (o Independiente tem 7). Tite certamente os esquadrinhou na cabeça. Mas lidar com o pior quadro pode ser positivo, se servir de alerta e sem pânico. O retrospecto dos finalistas no torneio de 2012 não sinaliza desequilíbrio para nenhum lado. O Corinthians tem sistema defensivo sólido, o Boca não é o demolidor de outros tempos.
 
Tite mudou o sistema no primeiro tempo do clássico da semana passada com o Santos. A equipe ficou muito atrás, se expôs à pressão, levou gol de Neymar. Mas se impôs na segunda etapa, indo pra cima e marcando no campo rival. Assim chegou ao empate e à vaga. A estratégia vingou sempre, desde o Brasileiro de 2011, e tem como manter-se eficiente na Bombonera.
 
O pecado a evitar é o do encolhimento. O Corinthians atual tem qualidade e nervos suficientes para resistir a assédio do Boca, e até para regressar com vitória. Hipótese nada desprezível, se apenas respeitar o rival e não se atemorizar com Riquelme e companheiros.
 
Imagine você: com a vantagem, o Pacaembu será um inferno para os gringos. Então, para não dar chance para que fantasmas de outrora assombrem, na forma de estatística, é bom aidantar o serviço hoje – e fazer festa dentro de sete dias.
 
*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 27/6/2012.)

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