À espera do milagre*

Antero Greco

16 de setembro de 2012 | 12h37

Na quarta-feira, 19, se festeja San Gennaro, padroeiro de Nápoles e muito popular também por aqui. A fé pelo mártir cujo sangue se liquefaz anualmente, há quase dois milênios, se difundiu em São Paulo e no sul do País por influência de imigrantes italianos e seus milhões de descendentes. A Mooca dedica o mês de setembro todo ao santo milagroso.

San Gennaro tem bases sólidas de seguidores dentre os torcedores do Palmeiras, por razões óbvias. Na infância que passei no Bom Retiro, viu muitas vezes Toninho Cazzeguai, o maior filósofo do bairro, organizar saraus para o Napolitano, como o santo era tratado no pedaço, assim mesmo, na maior intimidade, de igual para igual com os mortais. Encontros simples e alegres.

Pois soube agora que tem muito palestrino a pedir uma antecipação da graça que San Gennaro pode proporcionar-lhes, se assim for da vontade dele. A solicitação piedosa, reforçada por velas de sete dias, flores e outros mimos, é no sentido de que o santinho pouse as mãos sobre os jogadores alviverdes que entrarem em campo, na tarde de hoje, para o clássico com o Corinthians.

O jogo por si só há um século merece apelos especiais, porque não se trata de acontecimento comum. Palmeiras x Corinthians não é para iniciantes. Mas o momento é pra lá de delicado – daí as rezas redobradas. O Palmeiras está com a corda no pescoço e um pé na Segunda Divisão. O desespero espalha-se com mais velocidade do que boato de internet e, de quebra, o time desde quinta-feira ficou sem técnico, já que a diretoria concluiu que Felipão era o mal maior.

Como desgraça pouca é bobagem, terá pela frente o adversário mais tradicional, responsável por momentos memoráveis e por catástrofes só comparáveis à destruição de Pompeia pelo vulcão Vesúvio, no começo da Era Cristã. O rival histórico vai muito bem, obrigado, ganhou a Libertadores e esquenta os motores para detonar o Chelsea, no fim do ano, na disputa pelo título mundial.

Em circunstância rotineira, esse panorama já representaria muita humilhação para o Palmeiras. Agora o constrangimento pode aumentar, se se cumprir a promessa velada de jogadores alvinegros de dar mais um empurrãozinho para baixo na turma da Pompeia (nada é por acaso, dirão os fatalistas). San Gennaro, portanto, foi chamado. E nunca é demais auxílio extra de Santo Expedito…

A fé ajuda, por que não? Seja qual for o credo, vale a pena invocar forças celestiais, não como vingadoras de infiéis nem como respaldo para violência religiosa. Jogar futebol também cai bem. E disso o Palmeiras precisa muito. Parece maluquice, mas a equipe não vinha de todo mal nas últimas rodadas e algumas derrotas soaram injustas.

O interino Narciso não tem como remodelar a roda; o que conseguir hoje vale ser encarado como lucro. O torcedor deve apoiar os jogadores, se estima que mereçam. Deve ficar atento, também, no desempenho deles. Se passarem a dar sangue, a comer a bola além da conta, abrirão espaço para duas interpretações: enfim, tiveram consciência da gravidade da situação e por que não o fizeram antes?

O Corinthians é franco-atirador – ou melhor, franco-gozador, porque não tem nada a perder. Jogará praticamente com força máxima (tenta inclusive Emerson, que pegou suspensão estúpida) e surge como favorito disparado. Tem contra si a tradição do duelo de ser pródigo em reabilitar o lado que entra em crise. E, quem sabe?, a complacência de San Gennaro com os netos de seus devotos.

Mas, se nem o santo der jeito…

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 16/9/2012.)

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