A noite de fúria de Fabrício no Sul

Antero Greco

01 de abril de 2015 | 23h22

Pode ser o espírito de Páscoa, efeitos das reflexões da Semana Santa, idade. Sei lá. Mas não tendo a atirar pedras em Fabrício pelo destempero na noite desta quarta-feira. O jogador do Internacional perdeu as estribeiras, deu vexame, mereceu o vermelho no jogo com o Ypiranga e provavelmente não vestirá mais a camisa que tirou e jogou ainda no gramado.

Mesmo assim, não vou crucificá-lo. Ao contrário, convido você, amigo colorado, a fazer um exercício de compreensão e tolerância. E a primeira questão é a seguinte: o que leva um sujeito a comportar-se daquela maneira? E mais: foram apenas as vaias que lhe tiraram a concentração e o empurraram a fazer gestos obscenos para a turma das arquibancadas?

Jogador de futebol está acostumado às cobranças, às ofensas e aos aplausos. Fabrício não é nenhum iniciante, já viveu episódios semelhantes de repúdio da galera. Por que, então, desta vez chegou ao ponto de esquecer a bola e se virar para o público?

Estresse, depressão? Vai entender o que se passa na cabeça de um ser humano. Não encaro apenas como estrelismo. Tem mais coisa sob esse ataque de fúria, quase a lembrar aquele filme famoso do Michael Douglas. Não é usual nervosismo tão acentuado.

Vá lá que foi esquisito. Mas, pergunto de novo: quantos casos-limites não enfrentamos de repente no nosso dia a dia? Uma fechada no trânsito, alguém que avança o sinal, uma palavra mais duro dita pela mulher, o filho, o chefe. Muitas vezes, tiramos de letra, ignoramos ou respondemos de leve. Em outras, porém, algum processo interno desencadeia uma série de atitudes estranhas: corremos atrás do carro que nos fechou, xingamos o outro motorista, quebramos o pau em casa, chutamos o balde no emprego. Depois, com cabeça fria, percebemos que não era para tanto.

Fabrício errou, não coloco em discussão. E o melhor, diante de toda a celeuma, talvez seja sair de cena, trocar de ares, deixar o clube. Para espairecer, recomeçar e tocar a vida. No entanto, me passo uma coisa doida pela cabeça: o gesto supremo seria o perdão, de ambos os lados.

Alguém acha isso possível ou estou mesmo sob efeito da Paixão de Cristo?

 

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