A noite do Galo vingador*

Antero Greco

24 de julho de 2013 | 10h48

Jogo que vale título é coisa séria, não permite vacilos, exige concentração total. Os personagens do espetáculo precisam de retiro espiritual, com o devido recolhimento físico e mental, como se fossem receber o papa em casa. Esses preceitos rígidos servem para jogadores, comissão técnica, roupeiro, massagista, bilheteiros, pipoqueiros, torcedores. Até cambistas! Pois nessa hora a união de forças conta pra chuchu. Decisão é sagrada.

Não se brinca com partida que tem taça em disputa – ainda mais se for inédita, como no caso do Atlético-MG, que tanto cobiça a Libertadores. E se não for inédita também. Ou alguém acha que o Olimpia, três vezes campeão continental e três vezes vice, pisará no Mineirão como se fosse para um piquenique? Caia nessa! Os paraguaios entrarão com a adrenalina a mil, mesmo com a vantagem de 2 a 0 alcançada na semana passada.

Confronto derradeiro que se preze provoca calafrios, dor de barriga, deixa todo mundo com nervos à flor da pele. A ansiedade faz o sujeito desandar a falar ou o leva a um mutismo de monge tibetano. Os que têm fé rezam, prometem isto e aquilo, enchem os bolsos de santinhos. Supersticiosos cumprem rituais minuciosos para garantir o sucesso da equipe. Nada pode sair errado. Só quem não gosta de futebol tem a insensibilidade de achar que é tudo bobagem. Jamais fiquei indiferente a finalíssimas, até do campeonato da Ucrânia. Imagina com brasileiro envolvido.

Pois esta quarta vai ser de lascar, e não só para o atleticano. Claro que ele sentirá na alma cada toque na bola dado pelos astros dentro de campo. Os demais pegam uma rebarba, no mínimo como solidariedade, no máximo para secar. Vai dizer para cruzeirenses que o Galo hoje é “Brasil na Libertadores”?! Heresia sem tamanho. Se escuto o locutor exortar um rival com esse lugar-comum, fico com vontade de dar um chute na tevê. Em geral, mudo de canal – gesto sensato e menos desastroso.

Não há receita infalível para os mineiros saírem da saia-justa em que se meteram no Defensores del Chaco. O gol de Pittoni, nos segundos finais dos acréscimos, pesa toneladas nas costas de Ronaldinho Gaúcho e companheiros. Por mais otimismo que exista, complica a turma subir as escadas e botar os pés no gramado com o placar agregado a apontar a diferença. Faz parte da luta.

O Atlético teve sete dias para recuperar-se do baque, preparar-se, traçar estratégia que o leve pelo menos à vitória por dois gols e assim arrastar a disputa para a prorrogação. O raciocínio básico é de que dispõe de tempo semelhante ao do Olimpia – ou quase, a depender dos descontos do juiz – para devolver o placar. E, se tudo correr maravilhosamente bem, marcar um ou outro gol adicional para ficar com o troféu.

O êxito atleticano passa pela defesa, alterada pela suspensão de Marcos Rocha e Richarlyson. O setor ficou vulnerável, nas apresentações recentes, pelas constantes baixas. Victor tem papel fundamental – e que o exerça no tempo normal! Sem pênaltis, amém.

Pierre e Josué têm a incumbência de sustentar o equilíbrio no meio-campo. Mas recai sobre Ronaldinho, Diego Tardelli, Jô e Bernard a missão de transformar em realidade (entendam-se gols) a esperança da torcida. O quarteto de talentos é o recurso maior para entortar o eficiente sistema do Olimpia. Em Assunção, o gaúcho e Jô estiveram aquém do habitual, Tardelli carregou o time e Bernard ficou fora. Se tiverem a afinação de sempre, o nó pode desatar-se já no início, como ocorreu contra o Newell’s na semi.

O Galo pode penar, com o perdão do trocadilho, mas depende só de si para entrar na galeria dos brasileiros campeões da Libertadores. E, por tabela, colocar uma pedra nessa conversa de que Cuca é pé-frio. Espero noite memorável em Belo Horizonte. Que o alvinegro de Minas se espelhe no Corinthians de 2012 e parta também para o Mundial.

Perigo, perigo! Hoje tem São Paulo x Internacional pelo Brasileiro. Fortes emoções no Morumbi…

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 24/7/2013.)

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