A obsessão de Dieguito*

Antero Greco

12 de fevereiro de 2012 | 11h18

Diego Maradona é dos personagens mais extraordinários do futebol. Um gênio – e, como tal, com temperamento forte, contraditório, incomum. Espírito irrequieto, muitas vezes atormentado, sujeito exagerado, impulsivo, demoliu defesas na juventude, encantou plateias, abusou do próprio corpo e mente. Por isso, é visto como cativante e irritante ao mesmo tempo. Despertou, nestes seus primeiros 50 anos de vida, paixões extremadas e antipatias irremovíveis.

Dieguito, astro endiabrado que viveu o auge da carreira nos anos 1980, tem uma fixação: ser superior a Pelé. El Diez que enlouqueceu torcedores da Argentina, do Boca, do Napoli, jamais se conformou com a condição de “segundo melhor” de todos os tempos, como se esse tipo de classificação fosse definitivo e imutável. A sombra do Rei primeiro e único do futebol – por enquanto – sempre o incomodou, desde quando era rapazola e já incensado em seu país. Acreditou na bajulação dos que o viam acima da pérola negra brasileira e há décadas despende energia, libido e bile para atacar o desafeto. Na minha psicologia de botequim, vejo como projeção mal resolvida.

Maradona comporta-se em muitas ocasiões como menino mimado, malcriado e sobretudo obcecado. Na sexta-feira, do nada, de novo soltou os cachorros para cima de Pelé, dessa vez irritado porque Sua Majestade foi homenageado com uma estátua no Gabão, antes da final da Copa da África. O fenômeno dos gramados, que fantasmas químicos quase levaram para outra dimensão, recomendou que Pelé voltasse para o museu e não se enganasse ao tomar remédios. Ironia desnecessária, inadequada para a importância do argentino.

El Pibe não perdoa, por exemplo, o fato de Pelé ter livre trânsito na Fifa, entidade que abomina por considerá-la o mal por excelência no futebol. Perfeito, eu também não privaria da amizade da maior parte dos integrantes dessa insólita família. Da mesma forma, estou com os que não consideram o Rei inatacável, pois é “volúvel como pluma ao vento”, como o estereótipo de mulher cantada no Rigoletto, de Giuseppe Verdi.

E Maradona? Também muda de “tom e de pensamento”, pra me servir mais um pouco da ópera do maestro italiano. Ao longo de sua trajetória esportiva, teve lampejos de outsider, tratou de mostrar-se diferente, imune ao mundo que o cercava, posou de contestador. Só que, como outras estrelas de enorme grandeza, foi engolido pela engrenagem. Ele odeia a Fifa, mas disputou quatro Mundiais como jogador e, em 2010, lá estava à beira do gramado na Copa da África, a comandar sua seleção, como empregado de Julio Grondona, um dos aliados de Joseph Blatter.

O indomável autor do gol marcado com la mano de Diós, em 1986 contra a Inglaterra, participou de festa da Fifa, no final de 2000, quando uma eleição por internet o apontou como o jogador do século 20. Foi embora antes, para não topar com Pelé, que recebeu prêmio idêntico em escolha de jornalistas. Se, de fato, quisesse romper com esse universo, não disputaria Copas, não iria a cerimônias oficiais.

Maradona, no entanto, é humano, falível, fraqueja. Faria bem para si se não se incomodasse em brilhar mais do que Pelé. Ou será que essa batalha interminável, e que jamais vencerá, estimula a autoestima dele? Vai saber, a cabeça da gente tem cada doideira…

Começa o ano. O Paulistão anda morno? Hoje esquenta. Corinthians x São Paulo pode representar o início, de fato, da temporada de 2012. A rivalidade entre ambos assim recomenda.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 12/2/2012.)

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