A rapaziada amadurece*

Antero Greco

23 de junho de 2013 | 12h11

Quem me dera antever se a seleção vai conquistar o título da Copa das Confederações. Numa hipótese pouco provável, talvez nem chegue à final, pois ainda tem um obstáculo (o Uruguai?) pela frente antes da decisão. Mas, independentemente do que encontrar pelo caminho daqui em diante, o torneio preparatório para o Mundial já revela como enorme aspecto positivo o amadurecimento da nova geração brasileira. Dentro de campo, claro – e fora, também, com a tomada de consciência, de parte da juventude que está nas ruas, de que o país precisa melhorar.

Com uma pitada de convicção, e muito pelas circunstâncias, Felipão optou por vários jovens para compor o time, ao lado de gente rodada como Julio Cesar, Daniel Alves, Thiago Silva, Fred, Hulk. E a esta altura não se sente arrependido das escolhas. Nem poderia. Mesmo com oscilações, Marcelo, David Luiz, Luiz Gustavo, Oscar, Neymar, Paulinho, Lucas e outros mostraram até agora que se pode no mínimo esperar desempenho digno em 2014.

Escrevi diversas vezes que temos uma equipe normal – e isso não significa depreciá-la. Trata-se de constatação do estágio em que se encontra. Pior se fosse medíocre, a menos de um ano da festa da qual será a anfitriã. Daí, seria de botar medo no cidadão. O conjunto evolui passo a passo, sem saltos magníficos e sem regressão preocupante. Supera etapas, sem ser imprevisível. De acordo com o roteiro prometido pelo treinador ao assumir o barco.

Prova interessante do progresso gradativo veio com os 4 a 2 de ontem sobre a Itália, o melhor teste dos três na primeira fase da Copa. Nem tanto pelo resultado (sempre é bom ganhar de tetracampeão), mas por postura. A Azzurra, com desfalques, se mostrou adversário condizente com a própria fama e a do Brasil, sem comparação com o esforçado Japão nem com o limitado México. Pode não ter sido um furor no ataque; porém, a qualidade dos atletas tornou equilibrado o duelo.

A seleção largou com vibração e, com três minutos, chegou em duas ocasiões com perigo à área rival. Uma forma prática e eficiente de apresentar credenciais e de mandar o recado de que era a dona da casa. Os italianos não deram bola pra isso. E, à maneira deles, fecharam espaços e desafiaram a criatividade da turma de cá. A consequência foi um primeiro tempo morno, sem que ninguém se arriscasse além da conta. Os veteraníssimos Buffon e Julio Cesar assistiram ao jogo serenamente.

O clássico complicou, como se imaginava – e aí vale a pena notar que a moçada de Felipão não se desesperou; ao contrário, trocou passes pra lá e pra cá, ao estilo da Espanha. Com a diferença de que os campeões do mundo fingir ensebar, para de repente aparecerem na cara do gol. Os brasileiros carecem aprimorar essa característica. Falta Oscar incorporar de uma vez por todas o papel de maestro. A paciência recebeu como prêmio o gol de Dante segundos antes do intervalo.

O segundo tempo acentuou os méritos e os defeitos da seleção. A Itália abandonou a cautela, chegou ao empate e sapecou um ponto de interrogação no placar. Que virou ponto de exclamação com o lindo gol de falta de Neymar e, depois, com os dois de Fred. Nesse meio tempo, o zagueiro Chiellini chegou a diminuir (3 a 2), mas sem ameaçar a vitória.

A pressão italiana fez sobressair a necessidade de ajustar a cobertura pelo lado esquerdo. Marcelo não é marcador impecável; no entanto, compensa com arrancadas rápidas, que de novo renderam gol. No lado direito, Daniel Alves atuou mais como defensor e foi menos ala que de costume. Hernanes poderia ter se soltado, como faz na Lazio. O chute bem colocado é uma de suas características. Resta encontrar harmonia perfeita na transição entre defesa e ataque, sem excesso de bolas longas.

O Brasil tateia na busca da estrada ideal. Colocou um GPS, que pelo visto funciona. Pode ser que não ofereça atalhos; mas, se o mantiver em rota segura, está ótimo. Importa alcançar o destino final em julho de 2014.

*(Minha crônica na segunda edição do Estado de hoje, domingo, 23/6/2013.)

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