A voadora de Pará e a macheza no futebol

Antero Greco

27 de outubro de 2013 | 23h57

Sei que algumas vezes o sangue ferve e a gente pode fazer bobagem. Por isso, a sabedoria popular manda contar até 10 antes de uma reação intempestiva. Mas sou contra estupidez, em qualquer atividade, em qualquer situação. No futebol, ela se manifesta por meio de atitudes violentas de um jogador contra o outro, por diversos motivos, nenhum justificável.

O que o Pará fez no Geraldo, na noite deste domingo, no Couto Pereira, foi um desses episódios grotescos. O lateral do Grêmio irritou-se com os dribles e as firulas do atacante do Coritiba e decidiu que a melhor maneira de impor-se era dar-lhe uma sarrafada, uma voadora, em jogada  na lateral do gramado, com direito a cravar-lhe os dois pés nas canelas. Um descalabro, um horror, que só enfraqueceu mais o Grêmio na derrota por 4 a 0.

Pará poderia ter provocado fratura no rapaz. E por quê? Porque ele cometeu o crime de passar a perna em cima da bola, de tirá-lo para dançar, de divertir-se em campo, de explorar a precariedade psicológica de um adversário que havia marcado gol contra. Caramba, minar o rival é o objetivo num jogo de futebol. E isso ocorre com gols, dribles e estratégia.

Só que, no mundo machista e autoritário dos gramados, isso é afronta, pecado mortal, atenuante para agressões. Nas leis não escritas dos boleiros, dói mais do que uma cotovelada na boca, do que um chute na cabeça, do que quebrar a perna.

Tão estranha essa moral que o técnico Renato Gaúcho se viu no direito de cobrar postura de Geraldo. O mesmo fez Alex, o craque Alex, o capitão do time paranaense, que repreendeu o companheiro. Essa não entendi.

Por quê? Por que não vemos gesto semelhante quando um zagueiro, um volante, enfim, qualquer atleta, desce a ripa no outro? Ah, isso pode? Faz parte da virilidade? “Abusar” de dribles é encarado como afronta. É o mesmo que duvidar da macheza do outro. Mas como se mede o abuso?

Graças a Deus que Garrincha é de outra época. Ele dançava na frente dos marcadores, fazia barbaridades, humilhava mesmo, deixava os coitados no chão. E era ídolo, astro, querido. A “Alegria do Povo”. Hoje, talvez seria visto, por seus colegas, torcedores e críticos também, como irresponsável, desrespeitoso. Teria carreira curta – ou iriam quebrá-lo ou ficaria no banco até aprender o que é jogar bola. Ou isso que hoje se chama futebol.

O Brasil já foi muito mais alegre.

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