A volta do parafuso*

Antero Greco

15 de março de 2013 | 13h00

O presidente do Palmeiras arrumou uma encrenca e tanto, mas que pode dar bons resultados, desde que tenha persistência e apoio. Paulo Nobre mexeu num vespeiro bravo ao anunciar, dias atrás, que cortaria privilégios para torcidas organizadas – o principal golpe seria o fim dos ingressos grátis ou subsidiados. A medida era retaliação por agressões que jogadores sofreram após a derrota para o Tigre pela Libertadores.

Demorou um pouco para a maior uniformizada que segue o clube reagir. Ela deu sinal de vida ao divulgar manifesto em que faz críticas ao cartola e rebate acusações. A agremiação alega que compra as entradas e que pode fazê-lo sem intermediários e diretamente na bilheteria. Além disso, lamenta que Nobre, ao agir com “empáfia”, jogue esses torcedores contra os demais, e vê oportunismo do comando palestrino, que assim desviaria o foco dos erros que comete, como na saída de Barcos para o Grêmio. Mas reconhece que houve excesso por parte de alguns de seus integrantes, no ataque aos atletas na Argentina.

Há pontos que valem a pena ser abordados. Se a organizada diz que comprará os bilhetes com o mesmo ritual dos demais fãs do Palmeiras, que o faça. Verá o quanto a turma comum sofre, com filas e com os preços, isso quando não se vê refém da extorsão de cambistas. Botar a mão no bolso não é tarefa fácil e será um exercício de planejamento financeiro. É bom dar valor ao dinheiro.

Se a cúpula da facção esportiva admite que alguns de seus sócios “confundiram e não assumiram a postura” (sic) no quebra-quebra, por que não se empenha em identificá-los e puni-los? Não há referência a qualquer reprimenda estatutária para os briguentos. Se mostrasse apego ao rigor e à disciplina, a organizada passaria o recado claro para seus seguidores e também para os outros.

Não é a atitude de Nobre que reforça a imagem negativa das uniformizadas. Todas, independentemente da equipe de que se dizem admiradoras, colhem hoje receio, aversão, repulsa pelo comportamento agressivo, antipático, despótico. As coreografias que fazem são até bonitas, mas cobram um preço salgado para o restante do público.

Se algum dia quiserem, de fato, derrubar o que veem como preconceito, o ponto de partida é abandonar a violência como meio de persuasão. E podem contribuir com uma depuração em seus quadros. Daí, sim, voltarão a ser vistas como parte imprescindível da festa nos estádios. Enquanto agirem como donas das arquibancadas, como detentoras do monopólio da paixão por um time, vão afastar-se cada vez mais do cidadão que vai a campo só para se divertir.

Só não sei até que ponto irá a queda de braço entre Nobre e tais entidades. Espero que o dirigente persevere e que o outro lado se conscientize de que a autossuficiência e a sensação de onipotência podem levá-lo ao desaparecimento. Uma hora o barco afunda, sem possibilidade de resgate.

Também não vejo muito sentido na ideia da FPF de que os clubes criem e banquem uniformizadas próprias, formadas por “bons torcedores” e que esvaziariam o poder das organizadas atuais. No começo, seriam apenas fãs, mas com o tempo funcionariam como claques, pois seriam financiadas pela direção e a ela serviriam. Ora, perderiam senso crítico, imprescindível para quem ama o futebol. Sem se darem conta, os cartolas criariam novos monstros, idênticos àqueles que hoje pretendem extirpar…

A paz por aqui só voltará quando forem ao estádios torcedores, apenas isso, sem adjetivo complementar.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 15/3/2013.)

 

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