A vontade de ser Neymar*

Antero Greco

09 de outubro de 2013 | 13h18

Coisa normal na vida é escolhermos ídolos, termos modelos como referências, para embalar nossas fantasias ou nos orientar na profissão. Quem brinca de futebol um dia já se imaginou Pelé, Zico, Marcos, Careca, Messi a arrebatar plateias, com dribles, gols ou defesas sensacionais. Quando batuco crônicas, suponho um texto final com a graça e a sabedoria de Loyola, Verissimo, Stanislaw, Diaféria, Zé Cândido, Sabino, craques das palavras. Estímulos muito bons.

O problema está na falta de autocrítica, no ego inflado. Quando o aprendiz já se considera modelo de perfeição, só porque recebeu alguns elogios (verdadeiros ou interesseiros), sem perceber dá passo para errar o caminho. Vi estragos e tanto provocados por presunção, no esporte e no jornalismo, para ficar em duas áreas que acompanho de perto há muito tempo.

Vamos pro mundo da bola, que é o que interessa pra você. O noticiário relata que Victor Andrade e Neilton andam aborrecidos no Santos por se sentirem esnobados. O técnico Claudinei Oliveira, que os orientou nas categorias de base na Vila, decidiu colocar os jovenzinhos um tanto à margem da equipe principal. Os rapazes até recentemente entravam nos jogos com regularidade e despontavam como sucessores de Neymar no clube e na preferência do torcedor. Ostentam mesmo marcas que os aproximam ao moço que brilha no Barcelona, como o corte de cabelo exótico, ou aparelho nos dentes, ou o modo de falar e de gingar.

Nada contra, como escrevi no primeiro parágrafo. Minha geração usava botinhas, gravatinhas estreitas e cabelos compridos para imitar os Beatles. Nem por isso, mais tarde, ficamos sem personalidade. Por motivos que o treinador sabe melhor do que nós, a dupla perdeu espaço, ao menos por um período, e se chateou. Totalmente compreensível. Victor Andrade não atendeu convocação para integrar grupo da Sub-20 santista que se mandou em excursão para a Ásia e Neilton não topou mexer no contrato, que vence em maio de 2014.

Com tais reações, escancaram a insatisfação, com respaldo de procuradores, assessores, gurus. Sim, sim, essa meninada tem staff, estão pensando o quê?! Ninguém deve diminuir-se, é saudável e justo lutar por sonhos ou por aquilo que se acredita direito. O risco é bagunçar o coreto, se não houver orientação sensata. Não conheço Claudinei pessoalmente, mas não me parece sonso, mal-intencionado ou cabeça-dura. Pode ser que prefira esperar que os pupilos amadureçam mais e se firmem.

Victor Andrade e Neilton têm a impaciência própria dos adolescentes, estão numa fase bacana e complicada da vida e da carreira. Claro que, ao assistirem ao Neymar badalado, assediado e agora admirado pelos gringos, se enchem de vontade de seguir estrada semelhante. Fama, fortuna, convocações para a seleção, garotas bonitas às pencas são tudo de bom. Vidão que todos queremos, eu, você, o Nilsão Pasquinelli, diagramador do Estadão de sangue verde, que no momento curte a Série B e que não perdoou o juiz do jogo de sábado com o ABC. Mas essa é outra história…

Neilton e Victor Andrade devem batalhar, aprimorar a forma e o estilo, ter exemplos positivos como parâmetros. Mas nunca é demais ter presente que poucos nasceram para Pelé, Neymar, Messi. Ademir. Assim como raros são Loyola, Verissimo, Zanin, Giorgetti, Juca, Armando. Daí, serem especiais e únicos.

*(Parte principal da minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, 9/10/2013.)

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