A voz da vez é a dos boleiros*

Antero Greco

25 de setembro de 2013 | 13h20

O universo do futebol brasileiro é conservador desde que o Charles Miller voltou da Europa com as primeiras bolas de capotão um século e tanto atrás. Embora atualmente jogadores de ponta ganhem muito mais do que a maioria dos trabalhadores daqui, na prática não passam de servos de luxo cercados de carrões, bugigangas eletrônicas, beldades e patotas. Por tradição, não têm voz ativa e se alinham ao pensamento dos cartolas. Basta ver a subserviência de ex-boleiros com qualquer representante do poder. Eles têm no máximo o sacrossanto direito de ficar quietos.

Esse sistema sedimentado em hierarquia de senhores de engenho e quase intacto, agora recebe uma pitada de negação. Um grupo de atletas não gostou do calendário inicialmente imposto pela CBF para 2014 e resolveu questioná-lo em público. A programação de fato é ruim, esdrúxula e pouco profissional. Um horror cometido sob a alegação de que se trata de ano excepcional, por ser de Mundial, e sobretudo porque ele ocorrerá em nossa casa.

As competições de praxe não sofrerão nenhuma mudança. Isso significa que haverá os Estaduais, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores e Sul-Americana. Todos nos formatos habituais e espremidos em tempo útil menor, já que se prevê pausa necessária de 45 dias entre junho e julho.

A saída para o impasse foi a mais simplória – e daninha – de todas: a bola rola a partir de 12 de janeiro. Como grande parte dos times retoma atividades no dia 8, restarão 96 horas para se colocarem em forma. Nessa meia semana, passam por exames médicos, fazem testes físicos, ajustam a parte tática, entram em concentração, vão à luta e… seja o que Deus quiser.

Uma inovação extraordinária criada por gênios de gabinete, que talvez nunca tenham sido apresentados ao “balão mágico” e não tenham ideia do que seja futebol. Falham até como burocratas. Para arrematar a estultice, agem sem que os jogadores, diretamente afetados pelo estrangulamento da folhinha, tenham sido ouvidos. Ué, deve perguntar algum distraído, e deveriam?

A resposta veio na manifestação de cabeças e pés corajosos, que se atreveram a tomar a dianteira e pediram encontro com os caciques da CBF, do qual podem participar também presidentes de Federações e de clubes. A intenção é fazer-lhes ver o absurdo que se está a propor e analisar alternativas. Há ideias que vão desde redução de torneios à adequação do calendário ao dos europeus, que prevalece.

Já vi e li reações arrevesadas de alguns mandachuvas paroquiais. A argumentação vem carregada de soberba e não falta a observação de que a rapaziada chora de barriga cheia e que gozará de longa folga durante a Copa. Não é assim. Não vejo marmanjos como coitadinhos – e já deixei claro em diversas crônicas. Muitos são paparicados além da conta e agem como porcelana.

No caso específico de 2014 há um desacerto exagerado. Os moços têm o corpo como meio de trabalho, dependem do equilíbrio físico e mental para exercer a profissão. Não são peladeiros de fim de semana. Reduzi-los a amadores é visão estreita e preconceituosa. Eles custam caro, e contusões significam prejuízo para os empregadores. E elas virão.

Os atletas não acenam para confronto, ao menos no primeiro momento. Não ameaçam invadir as sedes sociais, arrombar armários, furar bolas e rasgar uniformes. Não partirão para o quebra-quebra com rosto coberto como os black blocs. Mas, assim como esses jovens, os boleiros pegam gosto pela possibilidade de ser ouvidos. Os dirigentes vão entrar nessa, se tiverem sensatez.

Dilema. A fase não é sossegada para o Corinthians, constatação óbvia e chover no molhado. Os resultados ruins têm feito crescer críticas a muitos campeões do mundo, incluído o técnico Tite. Mas, quer ver a guinada? Basta ganhar do Grêmio, hoje, pela Copa do Brasil. Quer ver o tempo fechar? Basta perder dos gaúchos. E agora, que bicho acha que vai dar?

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, 25/9/2013.)

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