Acorda, Ganso*

Antero Greco

23 de fevereiro de 2014 | 13h09

Torço pelo sucesso de qualquer jogador, do perna de pau ao craque. As duas categorias são indispensáveis para compor o fascinante caleidoscópio do futebol. O grosso serve de escada para o artista. Mas não escondo preferência por aqueles que tratam a bola com intimidade e arte. Só faltava ser espírito de porco e falar que me amarro nos cabeças de bagre.

Paulo Henrique Ganso despontou, quatro anos atrás, como candidato a ocupar vaga na galeria dos maestros. O toque refinado, os dribles secos e objetivos, os passes certeiros, a cadência de quem sabe como desfilar em campo logo chamaram a atenção e o fizeram se destacar no Santos. E servia de contraponto a Neymar, explosão, ousadia e gols.

Dupla perfeita, que fascinou de cara e só não conquistou a confiança de Dunga. Fui dos muitos que defenderam a presença de ambos na seleção que representou o Brasil na Copa da África do Sul. Não me arrependo e continuo convencido de que o treinador só teria a ganhar se apostasse neles.

As previsões de sucesso se confirmaram com Neymar, hoje o principal jogador da tropa de Felipão, assim como já era com Mano Menezes. A 10 no Mundial doméstico é dele. Mas Ganso bem poderia pleitear uma 8, 11, 18, sei lá. O número é o que menos importa. Bacana seria vê-lo a reger o meio-campo. Isso não vai acontecer, infelizmente.

E por culpa do Ganso. Vamos deixar de lado as contusões e as brigas dele e seus procuradores com a administração de Luís Álvaro de Oliveira. Os incidentes emperraram a carreira do talentoso paraense, mas são página virada. Ficaram para trás, quando conseguiu se transferir para o São Paulo em 2012.

No Morumbi, prometia retomar a trajetória de sucesso – e de liderança, como se viu na emblemática final de Paulista de 2010. Lembra? O Santos perdia para o Santo André por 3 a 2, no Pacaembu, estava com oito em campo e Dorival Júnior quis tirar o Ganso. O rapazinho disse “não”, ficou até o fim e, com malícia extraordinária, chamou o jogo para si, segurou a bola, até transformar-se em peça-chave no título. Uma atrevimento à altura de astros.

Aquele Ganso sumiu, evaporou, raras vezes voltou a dar as caras no Santos e mesmo no São Paulo. Perdeu espaço com a amarelinha – de titular passou a opção de banco e, em seguida nem foi mais lembrado, Não, ele não é uma mentira, não se trata de santo de pau oco nem de ídolo de barro. O sujeito sabe jogar como poucos, basta ver como chuta, parece uma carícia na bola. A inteligência e a visão são acima da média. Mas lhe falta constância, regularidade, pegada (e não se entenda aqui como sinônimo de patadas nos rivais).

Ganso não desfila como os grandes que o precederam – como Pedro Rocha, Gérson, Raí, só para ficar em alguns exemplos tricolores. Nem remete mais a Ademir da Guia, como chegou a ser comparado no início da carreira. No mais das vezes, gira pra cá e pra lá, faz um trabalho bom, sem ser vistoso. Ok, não precisa mostrar-se espalhafatoso, falastrão, posudo. Isso tudo é besteira. Porém, tem de impor-se, a ponto de torcedores e adversários notarem quem manda.

Muricy Ramalho se esquenta (eita temperamento!) quando lhe perguntam o que falta para Ganso florescer de vez. Antes respondia: “nada”. Só que já não tergiversa ao falar do 10 e admite que carece de mais pique, punch, como se dizia antes.

Ganso tem de acordar, e logo. Ainda está em tempo de confirmar os prognósticos generosos que se faziam em torno de si. Ele pertence a classe especial. Não pode mais desprezar esse dom. Vamos, moço, pode ser hoje contra o Santos!

Seu Mário foi em paz. Sem alarde, como foi seu estilo na vida toda, Mário Travaglini pegou o bonezinho que sempre protegia a careca do sereno e foi para o céu. Um personagem doce, um técnico que se impunha pela simpatia e pela fala mansa foi encontrar-se com bambas e são Pedro. Cuidado com o golpe de ar nas nuvens, seu Mário. Fica com Deus.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, domingo, 23/2/2014.)

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