Acorda, gente!*

Antero Greco

23 de janeiro de 2011 | 14h47

A eleição para a presidência do Palmeiras escancarou pela enésima vez quanto é amadora e arcaica a estrutura dos clubes, sobretudo aqueles que têm no futebol sua maior expressão. A escolha continua a ocorrer de forma indireta, com um seleto grupo a decidir quem vai controlar, no mínimo por dois anos, o objeto de paixão de milhões de torcedores. O ritual se assemelha a reuniões do conselho de anciãos de antigas tribos. Como outrora, um punhado de sábios se fecha numa sala e tem em suas mãos o destino da aldeia. Para a ratatuia só resta arregalar os olhos e acatar a decisão.

O pleito indireto em si não é o problema – muitas democracias adotam esse sistema e o Colégio Eleitoral representa a vontade popular. No caso das agremiações, porém, há subterfúgios nos estatutos que emperram as mudanças. Tudo é pensado para o poder não trocar de donos sem mais nem menos. Não é por acaso que existem muitos conselheiros vitalícios (às vezes a metade do Conselho Deliberativo é composta por esse pessoal ‘diferenciado’) ou aqueles indicados pela Situação para um mandato, também na quota dos casos especiais. Só uma parte é escolhida pelo voto.

Quem como eu já superou a curva dos 40 vai lembrar-se dos senadores biônicos – nomeados pelos poderosos de plantão, nos anos 70/80, para impedir que a Oposição ao regime militar ganhasse espaço. Truque baixo, com verniz de legalidade, mas injusto. O Brasil felizmente há um quarto de século embicou de volta pelo caminho democrático e dele provavelmente jamais tornará a desviar-se. (Faço figa.) Nossos clubes, ao contrário, ainda sonham com homens fortes, caudilhos. Com ditadores, pra falar o português bem claro e na lata!

O futebol nas bandas de cá incensa esses personagens, embora a tendência seja a de se tornarem esdrúxulos e ultrapassados. As exigências dos jogadores e seus procuradores, as cobranças de patrocinadores, os custos do negócio dispendioso em que se transformou o joguinho de bola requerem gente preparada. Não se vive mais apenas do carisma do cartola intuitivo, perspicaz, habilidoso. Características que contavam muito, décadas atrás, e que agora são periféricas.

Não prego a extinção do dirigente folclórico, em geral polemista, frasista que sabia estimular sua torcida e cutucar rivais. Sujeitos assim conferiam graça ao futebol. Me diverti muito com tiradas sarcásticas de Vicente Matheus, Francisco Horta, Arnaldo Tirone (o pai do novo presidente palestrino), Nicolinha Raccioppi (doce figura que nos deixou há pouco) e outros da mesma linhagem. Eles foram importantes em seu tempo, bem ou mal cumpriram seu papel. Hoje, imagino, poderiam enroscar-se nos meandros de um jogo que é bem pesado.

Não sou a favor do desaparecimento do cartola apaixonado pelo time. O presidente tem de ser o torcedor número um, que concentra as expectativas e as angústias dos fãs. Não pode ser um sujeito frio, distante, inalcançável. O cartolão, por sua sensibilidade e pelo simbolismo do cargo, representa ponto de referência. E só.

A gestão do clube tem de necessariamente enveredar pelo profissionalismo. Ok que o presidente continue a nomear seus diretores, como de praxe, para que funcionem como ponte entre time e torcida. Os cartolinhas devem aparecer na tevê e dar entrevistas. Faz parte da liturgia do cargo e massageia egos. Não descarto nem a presença de ex-boleiro para tratar com jogadores assuntos corriqueiros.

Mas um Departamento de Futebol precisa ser tocado por pessoas aptas a lidar com cifras cada vez mais altas, com contratos cheios de meandros, com marketing agressivo. Os clubes carecem de fato de projetos (palavrinha tão maltratada), planejamento, consistentes fontes de renda; não podem contar apenas com ações pontuais. Não devem mendigar verbas de tevês, patrocinadores, federações para pagar contas urgentes. Assim só se enfraquecem e se tornam presas fáceis para parcerias às vezes obscuras e para ‘investidores’ espertalhões.

Será visto como revolucionário o primeiro que colocar em prática esse ovo de Colombo. Acorda, gente!

*(Texto da minha coluna no Estado de hoje, 23/1/2011)

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