Acordo de cavalheiros

Antero Greco

12 de julho de 2015 | 12h43

Guerrero e Emerson Sheik mal chegaram ao Flamengo e já se transformaram em titulares, além de queridos da torcida. A rapidez na conquista de vaga e simpatia se deve ao talento da dupla e à escassez de jogadores de qualidade no elenco do clube carioca. Ambos, portanto, têm potencial para ser atração do time. Certamente, mas não participarão do clássico de hoje com o Corinthians, no Maracanã, pela 13.ª rodada do Brasileiro.
O motivo você sabe: no momento da transferência do Parque São Jorge para a Gávea dirigentes fizeram um pacto de não agressão, um acordo de cavalheiros que previa a ausência dos moços no primeiro duelo que viessem a realizar. A justificativa para a proposta é, no mínimo, curiosa: foram liberados antes do tempo de encerramento dos contratos prévios. E, portanto, nada mais justo do que desfalcar o novo patrão para não criar embaraços para o anterior.
Como o Fla andava aflito em busca de opções para o grupo topou a condição. O importante era não perder a oportunidade. Agora, com palavra empenhada, os coloca na arquibancada. A lisura rubro-negra vale elogio, pois nos dias que correm se desrespeita documento escrito, quanto mais acertos verbais. Pode até parecer discussão bizantina, mas cabem algumas considerações adicionais para o episódio.
Em primeiro lugar, o Corinthians abriu mão de Sheik e Guerrero para aliviar a folha de pagamento. Não pôde mantê-los – no caso de Emerson nem havia muito interesse mesmo – e os cedeu para o interessado. Procedimento corriqueiro no futebol. Lamenta-se a saída de atletas de renome e, página virada pra eles, se recompõe a equipe.
Sheik e Guerrero não mudaram de camisa em gesto de benemerência corintiana. Custam dinheiro para o Flamengo. E, mais do que grana, a inclusão no time ocorre em momento de tentativa de recuperação na tabela. A situação rubro-negra (13 pontos) não é confortável, a zona de rebaixamento assusta e todo “reforço” é bem-vindo. Só que não desta vez, por fair-play.
Delicadeza supérflua e arriscada para um lado; cômoda, para o outro. E mais: já que se trata dos dois times mais populares do Brasil, imagine como Sheik e sobretudo Guerrero não seriam chamariz de público? O flamenguista teria a primeira chance de vê-lo de perto, incentivá-lo e zoar com os rivais. Os corintianos teriam motivo para azucrinar (ou aplaudir) os ex.
Fala-se tanto em profissionalismo e se deixa escapar ocasião de promover um jogo de maneira positiva. Nada contra cavalheirismo; ao contrário, só a favor. Mas este pode sobressair na forma de frentes em favor de transparência na administração (das federações e da CBF, por exemplo), em calendários organizados, em vendas vantajosas de direitos de transmissão, em mercado agitado e vibrante. Enfim, há maneiras de os cartolas procederem com afabilidade recíproca. Fica o registro.
Noves fora a etiqueta, dentro de campo, em teoria, a vantagem é do Corinthians. Tite reformulou a escalação, por força das circunstâncias, e reencontrou equilíbrio. Não há futebol de encher os olhos, porém voltou a acumular pontos. No meio da semana, suou para bater o Atlético-PR por 2 a 0, porém com dois méritos: a defesa se mantém como a menos vazada (ao lado da do Palmeiras) e a equipe retornou ao bloco principal da competição. Há harmonia entre os setores, mas falta a definição no ataque, pois Vagner Love continua inconstante e pouco confiável. O Fla é incógnita: ora escorrega em casa (nos 2 a 1 de virada para o Figueirense), ora surpreende e ganha do Inter como visitante. Qual será contra o Corinthians?