Antero Greco
22 de julho de 2013 | 18h35
O São Paulo está mais para banda de coreto desafinada do que para recital da Sinfônica de Berlim no Municipal. As confusões e baixarias parecem mais aquelas que eu via nos cortiços do Bom Retiro do que o silêncio e a ordem dos casarões de Higienópolis. A gritaria se assemelha mais à balbúrdia em lanchonete popular, na hora do almoço, do que o titlintar de talheres de luxo em restaurante cinco estrelas, daqueles que o preço já parte de 100 reais só de caixinha pra manobrista.
Ou seja, há esculhambação generalizada lá pelas quebradas do Morumbi. Algo raro, senão inédito. O clube chique virou uma zona como qualquer outro.
Num primeiro momento, compartilhei da indignação dos torcedores tricolores que sofrem com os vexames do time e com atitudes bizarras de dirigentes. Achei absurdo diretor de futebol vir a público rebater declarações do Rogério Ceni e, na tentativa de desautorizar o astro, revelar que tem mesmo coisa errada nos bastidores.
Foi constrangedor ver o presidente Juvenal Juvencio dar a lista de técnicos demitidos na história recente do Corinthians bem na hora em que apresentava Paulo Autuori. O mandatário quis desviar o foco de seu clube e só ressaltou o quanto andou para trás, ao despachar treinadores a todo momento, enquanto o rival se estabilizou com Tite.
Vergonhosa, também, a cena de torcedores de organizada convidados para churrasco no clube, no domingo, ao partirem para a intimidação de sócios que não apoiam a atual diretoria. Chato assistir à discussão de JJ com associados. Inadmissível a carta enviada nesta segunda pela mesma organizada para sócios torcedores, na qual lhes explica que não estão do lado deste ou daquele. Sei… e usam o mailing do clube.
Bem, tudo isso é desagradável, mas tem um aspecto interessante: humaniza o São Paulo. De verdade, com essas mancadas, o clube que tentavam vender como “diferente”, como acima do bem e do mal, padece igualzinho aos concorrentes. O São Paulo se mostra “gente como a gente”, sai do pedestal, quebra verniz de polidez.
Abandona a imagem de infalível. Seus cartolas não são Deuses, e sim pessoas com medos, ansiedades, manobras. Não são virtuosos chatos, mas pecadores, para aproveitar o momento místico com a visita do papa Francisco.
Então, como seres humanos iguaizinhos a nós, que saibam aproveitar as lições que as escorregadas de agora deixam à mostra. E, a partir daí, iniciem a reconstrução tricolor. Reação que começaria com uma boa sacudida na direção e que chegue a jogadores e comissão técnica. Um gesto de grandeza, também para aproveitar a presença do sumo pontífice entre nós, poderia ser a renúncia do “Bento 16” do Morumbi. Com isso, abriria o processo de sucessão.
Não, não… Bento 16 só teve um. Mais fácil retirar-se do governo da Igreja do que deixar de ser cartola de futebol. Essa é uma cachaça viciante demais.
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