Bandeiras brancas no Paulistão são perfumaria

Antero Greco

17 de janeiro de 2014 | 19h02

Com a mesma regularidade das chuvas de verão, antes de cada edição do estadual a Federação Paulista de Futebol cria um factoide para gerar barulho. Uma vez, anuncia que os árbitros cumprirão intenso trabalho de preparação física. Noutra, promete catalogar os torcedores. Na seguinte, promove um pacote de ingressos tamanho família. E, invariavelmente, interdita estádios às vésperas da abertura, para liberá-los na sequência.

A novidade deste ano é a adoção de “bandeiras brancas” para os auxiliares da arbitragem. Trata-se de intenção simbólica. Marco Polo Del Nero, presidente da entidade, diz que pretende transmitir mensagem de paz para as torcidas com semelhante atitude. O dirigente, que passa mais tempo pra cima e pra baixo ao lado de José Maria Marin, a quem pretende suceder na CBF, se mostra entusiasmado com a medida criada pela turma do marketing.

As bandeiras brancas são perfumaria, diante de desafios mais graves que a FPF tem pela frente e que, entra ano sai ano, permanecem inatacados. O principal deles reside em encontrar fórmula que motive clubes grandes e torcedores a curtirem o Paulistão. O outrora torneio local mais importante do País hoje não consegue sair da mesmice. As equipes tradicionais se desgastam e os clubes do interior mal equilibram as contas. E a média de público é frustrante.

Outro ponto nevrálgico está no controle da violência. Há muito tempo existe a promessa de que ocorrerá combate aos que vão aos estádios só para armar confusão. Só que as ações práticas são tíbias, paliativas. Muito barulho e pouco resultado prático.

Essa tarefa é difícil, mexe com muita gente, um vespeiro no qual ninguém se arrisca a botar a mão. Anunciam-se medidas até prosaicas, como aquela de impedir que organizadas entrem com respectivos uniformes. Proíbe-se a roupa de frequentar as praças esportivas, não quem as usa. Essa parece piada de… bom, deixa pra lá.

Assim, na falta de ações que provoquem impacto e resultem em transformações, se opta por brilharecos. Como os das bandeiras brancas. Como reagirá o público se os bandeirinhas errarem (como acontece em qualquer campeonato)? Vai entender a falha ou xingará da mesma forma? Ou os auxiliares erguerão as bandeiras brancas pedindo rendição?

Em tempo: apesar dessas cascatas oficiais, continuo a gostar do Paulistão. Sem o fascínio de antes, é verdade. Mas faz parte do meu imaginário sentimental do futebol.

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