Boca-livre, uma instituição nacional

Antero Greco

26 de julho de 2012 | 11h42

A CBF levou cartolas de várias federações num voo da alegria para ver os Jogos de Londres. A maioria peixe miúdo, mas que sempre é bom alimentar, porque têm votos e nunca se sabe o futuro. O gasto, estima-se, ficará em torno de R$ 1 milhão, pouco mais pouco menos. O presidente da entidade nem se fez de rogado, quando lhe perguntaram, e se saiu com essa. “É tudo gente do futebol. Qual o problema? Se fosse convidar do balé, aí não teria sentido.”

A reação do senhor que recebeu o comando da CBF de presente, no ocaso da carreira esportiva, revela dois aspectos interessantes e notórios: 1 – os homens públicos (e ser dirigente de futebol tem esse status) daqui não se vexam com gastos feitos apenas para agradar apadrinhados ou correligionários;  2 –  brasileiro adora boca-livre, não perde nada que possa sair “na faixa”, mesmo que tenha condições de pagar.

Tenho certeza de que a maioria desses dirigentes convidados para a convescote olímpica teria condições de bancar a si próprios. Mas a graça não é botar a mão no bolso e sim receber o convite. Pois se trata de sinal de prestígio, de importância, indício de que o sujeito é imprescindível para abrilhantar o ato. É mostra de intimidade com o poder.

Assim é nesse tipo de viagem, ou mesmo num jantar, numa exposição, numa apresentação musical. O importante é sentir-se VIP. De que adianta o cara nadar em dinheiro, se ninguém graúdo, ou da “alta” como se dizia antigamente, o levar em consideração? Pode comprar iate, mansão, cobertura, carrão; isso valerá menos do que o carimbo de “convidado especial”.

Há quem não veja nada de mais nesse tipo de relacionamento. Há políticos, dirigentes, atletas, jornalistas, e tantos outros profissionais, que não se constrangem com convites de qualquer natureza. E sob as mais diversas alegações, algumas (poucas) até justas. Mas no geral o que prevalece é nossa quase atávica quedinha por uma boca-livre.

 

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