Bola fora e falsidade*

Antero Greco

26 de fevereiro de 2014 | 12h26

Uma linha de camisetas esportivas lançada nos EUA provocou a ira santa de setores do governo e da sociedade. As peças fazem referências entusiasmadas ao nosso País, mas, digamos, às avessas. Uma delas estampa a surrada frase “I love Brazil”, com um fio-dental, no lugar do coraçãozinho, a sugerir um rechonchudo traseiro. Outra traz garota de biquíni na praia, a insinuar que esteja disponível para uma aventura amorosa.

Talvez você tenha visto – na edição de ontem o Estado reproduziu um dos modelos. Achei de mau gosto, mas até aí entram preferências pessoais. Não costumo comprar camisetas cheias de desenhos. Vou no estilo tradicional, liso, com cor única.

Num piscar d’olhos, deu-se a polêmica. A Embratur protestou, por considerar que tal tipo de campanha arranha a imagem do Brasil e só reforça preconceitos. A presidente Dilma Rousseff promete combater o turismo sexual durante a Copa. No que faz bem. Acrescentaria que não só no Mundial – eis combate que deve ser incessante, sobretudo quando atinge crianças e adolescentes. Enfim, veio uma onda de fúria contra a fabricante, a multinacional alemã Adidas, que notou a bola fora e retirou os produtos do mercado.

Não gostamos de estereótipos nem de críticas de gringos. Normal, todo mundo é assim. Repare como nos irritamos ao ler reportagens e artigos em que se expõem nossas mazelas, reais, aumentadas ou fictícias. Nos últimos tempos, não faltam notícias a voarem por aí sobre os atrasos nos preparativos para a Copa, os riscos de protestos, a violência, a ação de bandidos, etc, etc.

Nem tudo é verdade, e não vale a pena gastarmos saliva com isso. Sabemos onde aperta nosso calo, a todo instante descemos o malho em instituições, reclamamos com razão de governantes, nos irritamos com a corrupção e com a inversão de prioridades. Mas assuntos nossos, de casa, foro íntimo. Quando sapo de fora bota a colher nos temas, reagimos com cólera, como fazemos com alguém que fale mal de nossa família, com os problemas que ela tem.

Entendo, portanto, o repúdio. Cá entre nós, nossa reação também comporta dose de falsidade. Há avanços no combate à violência contra mulheres e crianças, tenta-se mudar a ideia do Brasil como terra de samba, carnaval, moças exuberantes e desimpedidas, futebol. Aquelas coisas batidas de sempre.

Mas ainda alimentamos tais juízos equivocados. Nestes dias de carnaval, são abundantes os comerciais em que se acentuam prazer, o culto do corpo – em especial o feminino. Chamadas de tevê para os desfiles destacam belíssima mulata a requebrar-se, com uma maquiagem alegre a cobrir-lhe a nudez. Até propaganda de tubulação tem garota em trajes menores. Um tempo atrás, um spot de posto de combustível mostrava uma infiel com amantes a jorrar pelo ladrão de casa, enquanto o marido sonso explicava as vantagens oferecidas pelo estabelecimento…

Citei esses casos não por moralismo. Ao contrário, a intenção é mostrar como somos caretas, por um lado, e hipócritas, por outro. Que as mudanças comecem internamente – e são as que contam. Depois, faremos com que estrangeiros mudem preconceitos a nosso respeito. Não adianta espernear para a torcida.

Para arrematar: indecências, pra valer, ocorrem no nosso dia a dia, e se revelam no descaso com a vida. Essas, ao que tudo indica, pouco chocam as autoridades. Mais fácil ficar bravo com poupanças fartas.

Indiferença. Sobre banalização: outro jovem morreu, em consequência da barbárie em que se transformou a entortada paixão de alguns pelo futebol. O assunto ocupou espaço na mídia, sem grande clamor e com os costumeiros discursos e promessas de rigor contra a atuação de vândalos – lengalenga que há décadas se ouve em atrocidades do gênero. Muito papo e pouca ação. A violência ocupa o cotidiano e aos poucos nos dobramos a ela. E ainda lemos que a facção atingida avisa, sem cerimônia, que logo virá o troco. Rotineiro…

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, 26/2/2014.)

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