Botar a boca no trombone

Antero Greco

27 de agosto de 2011 | 13h04

Não sei a média de idade dos que costumam ler meu blog, mas suponho que a maioria seja bem mais jovem do que eu. Quantos, por exemplo, lembram do Concurso de Resistência Orniex? Peguei vocês nessa, hein! É de carnaval das antigas, quem tiver curiosidade dê uma pesquisada no Google para saber mais…

Pois bem, minha geração cresceu com mordaça, com liberdade cerceada e cercada de ameaças por todos os lados. Não se podia esboçar qualquer reação de inconformismo que na hora crescia a sombra da Repressão. Tudo era errado, tudo era proibido. E dá-lhe borrachada. Viam-se “comunistas”, “terroristas” e “subversivos” em todo canto. Na faculdade, a gente desconfiava do colega, pois ele poderia ser um agente infiltrado. E muitos eram mesmo…

Parte importante da formação cívica foi roubada da juventude dos anos 1960, 1970, com um pezinho nos 80. Ainda assim, explorava-se a mínima brecha para protestar. Custou, mas recuperamos a normalidade democrática, nos devolveram o direito de pôr a boca no trombone. E esse é um bem sagrado que nunca mais devemos deixar que nos tomem.

Por isso, entendo como justa, adequada, sagrada até, a intenção de torcedores cobrarem, neste domingo, transparência nos custos das obras para a Copa de 2014 e de mostrarem insatisfação com os donos do poder do futebol nacional. Sem violência, é direito de todo cidadão manifestar suas ideias. Está na Constituição, é Lei, não é favor para ninguém.

Há ameaças estapafúrdias, como aquela que vinha de Santa Catarina, com proibição de cartazes ou coisas do gênero contra a cartolagem todo-poderosa. Medida derrubada pelo Ministério Público Federal, conforme noticiou ontem o Juca Kfouri. Para desespero de lambe-botas espalhados pelo país.

Portanto, exerça seu direito de soltar o verbo, não se envergonhe de mostrar o que pensa. Isso serve para todas as ocasiões, não só no caso específico do futebol.  Mas o faça com elegância, com bom humor, sem baixar o nível e sem aceitar provocações. Por mais que diga que se lixa de montão, tem gente que precisa saber que não é intocável.

 

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