Camisa pesada*

Antero Greco

17 de agosto de 2012 | 10h47

Quantas vezes você ouviu falar que uma camisa “pesa”? Certamente perdeu a conta. É chavão que deve ter desembarcado por aqui junto com a primeira bola e fardamentos que Charles Miller trouxe na bagagem no final do século 19. Sempre se interpretou a frase no óbvio sentido metafórico, para realçar a grandeza de determinado uniforme.

Pois agora se sabe que camisa pesa de verdade. A tão terrível revelação foi feita pelos rapazes que anteontem defenderam a seleção no amistoso com a Suécia. Eles pisaram o mítico gramado do Estádio Rasunda com uma réplica da camisa azul que o Brasil vestiu na final do Mundial de 1958, o primeiro dos cinco que conquistou ao longo do tempo.

Gabriel, Daniel Alves, Thiago Silva & Companhia Limitada entraram em campo enfeitados com a belezura reproduzida especialmente para a ocasião. E que ocasião! O jogo marcava o encerramento das atividades de um dos templos do futebol internacional. O complexo esportivo em Estocolmo desaparecerá, e em seu lugar surgirá um condomínio residencial e centro comercial. Pena.

Todos posaram para fotos, sorridentes e garbosos, a ostentar um dos símbolos da história do esporte brasileiro. Azul impecável, forte “como o manto de Nossa Senhora”, de acordo com palavras que Paulo Machado de Carvalho, lendário chefe da delegação, na época usou para animar os atletas. No lado esquerdo, o escudo da antiga CBD, a finada Confederação Brasileira de Desportos. Linda. Antes do apito inicial, tiraram aquela túnica para colocar a atual, de tecido moderno, dry fit, cientificamente elaborado com garrafas pets ou sei lá o quê.

Tiraram não é o verbo adequado. O melhor é livraram-se da camisa. O motivo foi singelo e ao mesmo tempo estarrecedor: era pesada. Feita de pano, coisinha rústica e fora de moda, ficou desconfortável nos bem modelados corpos dos moços. Eles temiam, também, que o incômodo aumentasse com o acúmulo de suor. Sabe como é? À medida que a partida avançasse, teriam os movimentos dificultados por equipamento obsoleto.

Nada contra a evolução. Não faria sentido, por exemplo, os jogadores ainda hoje irem para suas batalhas trajando paletó, camisa social, gravata e bermudas, como os boleiros de antanho. Também não dá para calçarem as chuteiras de meio quilo em cada pé, as desengonçadas chancas do tempo da Carochinha, que precisavam ser lubrificadas com sebo, assim como as bolas de capotão. As empresas de material esportivo não investiram bilhões para marcar passo.

Mas, puxa vida, se tratava de um momento raro, único, irrepetível na carreira desses homens. O destino lhes deu de presente a oportunidade de se exibirem com roupa de gala, de causar inveja. No entanto, recusaram a honraria, sob a alegação de que não lhes permitiria jogar à vontade…

A CBF aceitou o muxoxo de seus jovens delicados e tentou colocar panos quentes, com a desculpa de que não havia número na frente, e isso dificultaria a identificação para as emissoras de televisão e rádio.

Sem que se dessem conta, os jogadores tiveram atitude emblemática. À parte o fato de não conhecerem história da profissão que exercem, inconscientemente sentiram o peso dessa camisa campeã. Porque, pensando bem, não é qualquer um que pode bater bola com uniforme idêntico àquele que, num dia mágico, envolveu o físico e a arte de Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Zagalo e um rapazola conhecido por Pelé, futuro Rei.

É, foi melhor assim.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 17/8/2012.)

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