Camisas pesadas*

Antero Greco

26 de fevereiro de 2012 | 12h13

Se alguém perguntar se os goleiros Bruno, Deola e Dênis são sujeitos de sorte, a resposta imediata é sim. Dois jogam no Palmeiras, o outro integra o elenco do São Paulo. Quer dizer, estão empregados em clubes importantes, têm ampla visibilidade e boas perspectivas de sucesso na profissão. Um pouco mais de reflexão não anula a reação inicial, porém pede complemento: o trio tem responsabilidade do tamanho de um transatlântico, desses que não afundam nem com trapalhadas de comandante barbeiro.

Bruno e Deola envergam camisa que pesa toneladas, assim como não é nada leve a de Dênis. Os palestrinos lutam para ver quem herda o espólio de Marcos, recentemente aposentado. O tricolor substitui Rogério Ceni, em afastamento forçado por operação. Tenta mostrar, no período de repouso do titular, que a sucessão ocorrerá sem sobressaltos.

Não queria estar na pele desses rapazes perseverantes. Em primeiro lugar, porque goleiro é das funções mais ingratas do futebol, quase solitária e que aparece nos lances decisivos. Não tem colher de chá pra ele. Só perde para bandeirinha, que ouve xingamento ao pé do ouvido, leva cusparadas e, dependendo do estádio, sai de campo encharcado por água, cerveja, refrigerante e líquidos menos nobres atirados por torcedores enfurecidos com suas decisões. Esse sofre.

Não bastasse a atividade espinhenta, a trinca está exposta a comparações perversas com os totens Marcos e Rogério Ceni. Acha que é moleza tomar o lugar de um “santo”, do maior ídolo da última década e meia de time carente de títulos? Pensa que é fácil o trabalho, mesmo temporário, de entrar em campo na vaga do capitão, artilheiro, conselheiro, auxiliar técnico informal, mito, mais de 100 gols marcados e de 1000 jogos disputados? Dá para tremer na base, não é mesmo? Não?! Não brinca, amigo.

Os três estão sob observação cerrada, as falhas tomam proporções tridimensionais, o menor vacilo soa um desastre, provoca calafrios, pânico. E, para azar deles, as derrapadas teimam em dar o ar da desgraça. Por mais que digam o contrário, em discursos parecidos e pouco convincentes no tom firme, lidam a cada partida com o olhar enviesado dos fãs. Só falta os moços se ajoelharem e, mãos postas, fazerem o apelo: “Acredite em nós!” Mas palestrinos e são-paulinos mal-acostumados exigem mais, esperam o que talvez eles não possam oferecer. E desconfio que não podem mesmo.

Bruno e Deola precisam lidar com cobrança maior, pois a saída de Marcos é definitiva. Na fase final da carreira, o 12 passava longos períodos de molho e via seus pupilos em ação. Mas a torcida nem se abalava, porque ficava sempre na expectativa da reaparição e de novas proezas do milagreiro. Agora, não. Marcos é passado, pendurou as luvas, vai virar estátua. Os rapazes terão de desdobrar-se para ganhar crédito com a massa. No momento, têm pouco – e Felipão sabe disso, tanto que estimula a concorrência. Confia-se na “escola palmeirense” de goleiros. A tradição será honrada? Tomara.

A avaliação de Dênis não é pra já, assim como não é para longo prazo. Rogério Ceni voltará no meio do ano; no entanto, a aposentadoria se aproxima. A busca por herdeiro existe no Morumbi, embora velada. Leão sugeriu a contratação de um goleiro e a diretoria recusou, pois continua atenta ao desempenho de Dênis. Sem apavorar-se, sem aplausos entusiasmados.

Como torço por renovação de qualidade, espero que os dois que jogarem hoje saiam como heróis, brilhem como os antecessores. Mas admito: é mais simpatia do que constatação.

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 26/2/2012.)

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