Cara de palhaço*

Antero Greco

24 de janeiro de 2014 | 13h11

Muitos anos atrás, Miltinho fazia sucesso com uma música que começava assim: “Cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço, foi este meu amargo fim…” O veterano artista cantava, lá no tempo do Onça, os desenganos de um apaixonado que quebrou a cara por causa de uma mulher que o fazia de bobo. Canção atualíssima, porque homem vive a cair do cavalo desde que Eva o convenceu a morder a maçã proibida. E não é só no amor.

Taí nossa presidente para provar que a faceirice feminina dribla os marmanjos ao menor descuido. Pois Dilma Rousseff não disse ontem, em encontro com Joseph Blatter, que construir estádios é “coisa relativamente simples”? Com uma frase trivial tratou de convencer a Fifa de que o temor com atrasos nas obras de cinco das 12 praças esportivas previstas para o Mundial não passa de assunto banal. Ninharia que não deveria tirar o sono de ninguém. E bem barata.

Só pode ser conversa fiada, script do jogo de cena em que as duas partes rasgaram elogios mútuos, sorriram para mostrar harmonia e não responderam a perguntas de repórteres. A chefe de Estado falou da boca pra fora. Quem a conhece melhor, crava que o governo está furibundo e preocupado com risco de falhas na organização do torneio e com os cronogramas desprezados.

Não há como justificar a demora. A escolha para receber a competição foi há sete anos, prazo suficiente para trabalhar com calma e planejamento. Trata-se de esculhambação que ultrapassou o limite do folclore e do estereótipo de que sempre damos um jeitinho.

O caso de Curitiba é emblemático da maneira como empurramos com a barriga prazos e compromissos. A ampliação da Arena da Baixada arrasta-se a passos de lesma. Não foi à toa que Jérôme Valcke ficou assustado na vistoria do começo da semana. O secretário-geral da Fifa age como chato. Ok. Desta vez, porém, está com a razão. Os jogos começam daqui a poucos meses e o campo está sem acabamento, sem grama, como se fosse para 2016 ou além…

Os responsáveis pelo projeto prometem entregar o prédio em maio e que não será necessário plano B. Como se isso fosse natural e corriqueiro. Sem motivos, portanto, para o francês se descabelar. Não é assim. Pode ser que, na base de jornadas extras e verbas adicionais, a arena seja concluída em tempo. Mas com que qualidade? Como garantir que serão seguidos padrões de segurança? Quem faz uma reforma frugal em casa sabe como dá dor de cabeça e como existe probabilidade de se concluir no tapa, com arranjos mal ajambrados. O que imaginar de um estádio?

A Copa sairá, disso não duvido – nunca levei a sério as ameaças da Fifa de mandar-se de mala, cuia, seleções e patrocinadores para outra freguesia. Bravatas. A brincadeira terá preço exorbitante, com muito improviso, arremedos e quebra-galhos. Não é catastrófico pensar que, em médio prazo, esses templos da bola engolirão mais dinheiro público em revisões.

E a prezada presidente me vem com essa de que estádios são coisa “razoavelmente simples” de tocar adiante ?! Imagino o sacrifício que seja erguer escolas, creches, hospitais e outros supérfluos. Epa, um Mundial não se faz com hospitais, já constatou o fenômeno do pragmatismo. Vai, Miltinho: “Estavas louca por um trouxa pra fazer cartaz. Na sua lista sou um bobo a mais.”

Brasileiro-2013. O Ministério Público de São Paulo revelou, em entrevista à ESPN, que tem certeza de que a Portuguesa sabia que não poderia escalar Héverton na rodada final. Apesar disso, vai empenhar-se para anular os julgamentos que a puniram com a perda de 4 pontos com base no Estatuto do Torcedor.

Eu e outros jornalistas defendemos a boa fé da Lusa desde o primeiro momento, com o desgaste que isso nos provocou. Agora, se teve participação de alguém do clube, será indefensável, tema para inquérito policial. Miltinho, de novo: “Cara de gaiato, pinta de gaiato, roupa de gaiato, foi o que eu arranjei pra mim”…

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 24/1/2014.)

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