Cara e coroa*

Antero Greco

21 de agosto de 2015 | 15h25

Caro leitor, pode ser apenas atitude espírito de porco, para contrariar e espicaçar a maioria. Ou tentativa de dar um chega pra lá no baixo astral generalizado, que estraga o dia já no café da manhã. Ou sintoma de cuca lesada. Ou um pouco de cada coisa. Portanto, em nome de amizade, ou caridade cristã, tenha uma pitadinha de paciência com o teor desta crônica.

Por quê? Porque novamente este nobre espaço carrega uma dose de otimismo com o futebol daqui. Sim, senhor, anda divertida a temporada doméstica, já que no plano internacional (entenda-se Libertadores) o vareio foi total. Pegue o Brasileiro e a Copa do Brasil, a rolar paralelamente. Tão semelhantes e distantes ao mesmo tempo, cara e coroa da mesma moeda, indicam caminhos opostos para os participantes, mas os unem no essencial: a imprevisibilidade. Tanto numa quanto noutra competição está difícil cravar favoritismo para qualquer um.

Tome como exemplo as oitavas de final da Copa do Brasil, que começaram quarta-feira, continuaram ontem e terminarão na semana que vem.

Time que está por cima na Série A levou tranco, equipe que sofre com a pindaíba na divisão de elite surpreendeu, ganhou fôlego e fez estrago graúdo no rival. Clube que é modelo de eficiência tática voltou para casa com a pulga atrás da orelha.

Pegue o caso emblemático do Vasco. Apanha mais do que boi ladrão no Brasileiro, tem medo danado de ser trirrebaixado (se permitem o termo) e chamou Jorginho para atuar como salvador da pátria, técnico e pastor de almas à deriva. Topa com o Flamengo e vence por 1 a 0, com desempenho diferente daquele habitual, de gente grande.

Como desdobramento, botou ponto final na aventura de Cristóvão Borges na Gávea. O treinador se segurava por um fio, rompido depois da atuação anêmica no Maracanã. A cartolagem não perdeu tempo e fez a troca no vapt-vupt: antes do almoço saiu um, na hora da sobremesa apresentou outro. Dá até o que pensar tamanha agilidade.

O Corinthians lidera o Brasileiro e Tite tem dado de lambuja em concorrentes, com a estratégia de tirar o máximo de eficiência com o mínimo de oportunidades. Leva a rapaziada para a Vila Belmiro e toma uma surra tática de Dorival Júnior, nos 2 a 0 para o Santos, o mesmo Santos que só agora dá sinais de recuperação no Brasileiro.

O Galo luta pelo título maior, recebe o Figueirense e se salva do vexame com gol aos 48 do segundo tempo. O Grêmio visitou um Coritiba afundado na Série A e suou para fazer 1 a 0. O São Paulo pega o Ceará desesperado na Série B e passa vergonha e toma vaias. Isso é bacana. As vagas estão abertas, mesmo que no fim prevaleça a lógica.

Até a arbitragem teve comportamento distinto. O rigor espalhafatoso do Brasileiro, a sanha de dar pênalti em toda dividida ou ralada de bola na mão na área, foram substituídos por complacência e tolerância. Os senhores do apito não carregaram nas tintas. Nem por isso os jogos tiveram mais polêmica do que o habitual. Ao contrário, diminuíram episódios de choras, lamúrias e maldições.

Há algo bom no ar – e isso tem de ser sentido e transformado em ações positivas para todos. Sem jamais baixar a guarda, nem abdicar do senso crítico, que tal abrir espaço para a emoção? O futebol brasileiro mexe com a gente; não tem a grana dos gringos, mas possui charme. Basta uma trégua. Desarmar espíritos seria bom esporte nacional…

A fila anda. Oswaldo de Oliveira nem precisou de auxílio-desemprego e já achou colocação. A missão no Flamengo não será simples: cobram-se resultados imediatos. A não ser que arrebente a banca e promova reviravolta sensacional, é empreitada só até o final da Série A. Tomara que não. A conferir.

Na torcida. Luciano cavou espaço no Corinthians com gols e velocidade. Agora, por acidente de trabalho, ficará meses parado. Pena, mas é jovem e logo se recupera. Boa sorte.

*(Minha crônica no Estadão impresso desta sexta-feira, dia 21/8/2015.)

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