Casa da sogra já era*

Antero Greco

11 de outubro de 2015 | 17h09

Nos tempos de chefatura de polícia, juizado, radiopatrulha, balão chinesinho, Emulsão de Scott, caderneta em empório, palmatória na escola, sanduíche de mortandela – ou seja, bem antigamente –, era comum mandar a seguinte advertência para um sujeito folgado, espaçoso e sem modos: “Pensa que está na casa da sogra?” Dessa forma, se tentava fazê-lo ver que mordomias só em ambientes privilegiados, e anacrônicos.

Pois bem, muitas das coisas citadas no parágrafo acima viraram lembranças para os veteranos – os mais jovens deem um google e confiram o que era. Até as sogras não são mais as mesmas. Felizmente, para elas, ora bolas, que não têm mais de cuidar de marmanjos filhos de outras.

No entanto, no futebol certos hábitos permanecem inalterados, se não piores. O principal deles: um presidente do momento se considera dono do clube. Durante o período em que ocupar a cabeceira da mesa de reuniões, terá sempre a última palavra, quando não também a primeira e a do meio.

Reinará como Rei Sol, senhor absoluto, dono dos destinos da agremiação. O time vai confundir-se com o brilho da imagem dele. Faz e desfaz, contrata e dispensa jogadores ou técnicos, como bem entender. Fecha acordos de patrocínio, publicidade, tevê como considerar melhor. Se houver alguma reação contrária ou esboço de crítica, a resposta estará na ponta da língua: “O regime é presidencialista.” Autoritarismo disfarçado de regra democrática.

O mar de lama em que se atolou o São Paulo, nestes dias, é exemplo acabado dos malefícios do presidencialismo – que, a bem dizer, não se limita ao Morumbi; ao contrário, é prática disseminada e enraizada Brasil afora. Segundo denúncias de ex-colaboradores, o presidente Carlos Miguel Aidar tomou decisões controvertidas, para ficar em termos gentis, que combinam com a outrora postura altiva dos tricolores.

Há acusação de desvio de conduta, e paira no ar a promessa de apresentação de dossiê alentado a respeito de negócios mal explicados conduzidos por Aidar. Não é por acaso que a turma da situação se encolheu e o pessoal da oposição ficou ouriçado. A pressão para a renúncia é forte – e, por mais que tenha prometido resistir, parece a ponto de capitular. Humilhante. Mais desgastante, porém, são as dúvidas. As reticências atingem o cartola e o clube.

Aidar deve explicações, e muitas, a Conselho e torcedores. O pouco que já vazou para a imprensa é suficiente para provocar terremoto numa agremiação séria, tradicional e octogenária. As suspeitas levantadas por Ataíde Gil Guerreiro não podem passar batidas – nem por quem toma decisões no São Paulo, tampouco por Aidar.

Todos precisam esclarecer a fundo as respectivas posições. A decência, a transparência, a honra pessoal e tricolor o exigem. Como vai terminar o episódio não se sabe, oficialmente, embora cresçam os sinais de saída de cena. Aidar procura parecer irredutível na recusa de jogar a toalha, mas o panorama ficou insustentável. Mesmo que deixe o cargo, tem o dever de ir a fundo – e de cobrar quem o acusa.

Acima do caso pontual do São Paulo fica lição maior e óbvia: não se pode mais admitir, em clube algum, que o presidente seja intocável, se coloque acima do bem e do mal, viva e se movimente como um semideus. Bajulação é obsoleta, resquício de coronelismo que o futebol – duro na queda para a modernidade – abriga como se fosse natural.

No Brasil, nenhum presidente é dono de clube, e não pode agir como se não tivesse de prestar contas de seus atos. Escrevi dias atrás, mas vale repetir: dirigentes são escolhidos para administrar bem que não lhes pertence, tesouro cultural e afetivo, imaterial e de valor incalculável, que é de sócios e simpatizantes.

Que os clubes se mirem no vendaval da Fifa e acabem com a figura do mandachuva. Todo-poderoso já era, não apita nem na casa da sogra. Aliás, está na hora de as mulheres terem espaço na cúpula do futebol e botarem ordem nessa bagunça.

*(Minha crônica publicada no Estadão impresso deste domingo, 11/10/15.)

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