Clássico da saudade

Antero Greco

03 de fevereiro de 2018 | 19h50

Quando era jovenzinho, lá pelo final dos anos 60 e começo dos 70 do século passado, assistia a muitos jogos nos estádios. Na época, a carteirinha de estudante e a idade me permitiam entrar de graça. Para um menino de classe média baixa, do Bom Retiro, esse era programão. Por isso, não perdia partidas do meu time, claro, mas curtia ver os rivais em ação. Os cinco grandes (sim, a Lusa incluída) tinham formações de dar gosto.

Fascínio pra valer era o clássico Palmeiras x Santos. De um lado, a Academia alviverde; de outro, a fabulosa máquina alvinegra de jogar bola. Os dois juntos formavam uma seleção, com titulares e reservas. Perdi a conta de quantas vezes acompanhei de perto o duelo, sobretudo se estivessem em campo Pelé e Ademir da Guia!

Juro que não é saudosismo, nem aquele papo de “no meu tempo”… Mas vovôs de hoje, que por acaso estejam a ler esta crônica, podem comprovar: que lindeza, que majestade o encontro das duas lendas (tenho como relíquia uma cópia de foto original, do arquivo do nosso “Estado”, em que aparecem em destaque Pelé e Ademir, numa dividida que mais parece passo de balé. Uma obra-prima, cujo autor no momento me foge à lembrança).

Alguns desses confrontos se fixaram na memória afetiva. Dois deles em 1965 e, por coincidência, com surras e tanto dos palestrinos. O primeiro, pelo Rio-São Paulo, em 31 de março, no aniversário de um ano da “Redentora”, aquela…

O Palmeiras foi ao Pacaembu com time completo, enquanto o Santos mandava reservas, porque a força máxima à noite jogaria com o Peñarol, em Buenos Aires, a “negra” nas semifinais da Taça Libertadores. Caiu cá e lá. Por aqui, foram 7 a 1, com três de Ademar Pantera. Acolá, os uruguaios venceram por 2 a 1 e foram para a final.

Em dezembro, o Santos já comemorava mais uma conquista de Paulistão e foi ao Parque Antarctica despreocupado da vida, para cumprir tabela. Levou sapecada de 5 a 0, três gols de Dario e dois de Servílio. Naquela tarde, Ademir da Guia não esteve em campo.
Não esqueço o troco santista (4 a 1), dois anos mais tarde, no mesmo local, também pelo Estadual, que era importante e dava prestígio. Toninho (2), Silva e Pelé calaram o saudoso estádio verde; Tupãzinho descontou.

Você me permite?, dou as escalações, porque só tinha artista. Palmeiras com Valdir, Djalma Santos, Baldocchi, Minuca, Ferrari; Dudu e Ademir; Cardozinho, Servílio, César, Tupãzinho. O Santos com Gilmar, Carlos Alberto, Ramos Delgado, Oberdan, Rildo; Clodoaldo e Lima; Toninho, Silva, Pelé e Edu.

Um pouco mais crescido, então calouro do curso de Letras na USP, numa tarde de março de 1972, fui ao Pacaembu para me deliciar com outro choque entre as turmas de Ademir e Pelé. Ganharam os palmeirenses, por 2 a 1. Tenho bem viva uma cena: com poucos minutos de bola a rolar, Pelé tenta dar uma “caneta” em Dudu, toma um sarrafo, não abre o bico. Em respeito ao volante procura outro espaço para suas diabruras. Opaco…

Recordações de felicidade que o futebol proporcionou a mim e a tantos garotos que tinham caminho livre para frequentar praças esportivas, sem medo de brigas, com as torcidas misturadas e a curtir seus ídolos. O máximo de perigo que havia era o desentendimento de exaltados e bebuns, aqui ou ali, logo apartados pela turma do “deixa disso”.

Não sei quem colocou nesse jogo o apelido de “Clássico da Saudade”, em homenagem àquele período. Mas acertou. E que esta tarde possa entrar para a lista de histórias a serem citadas no futuro pelos que estiverem no Allianz. O primeiro teste importante para o Palmeiras embalado e para o Santos em busca de afirmação. Que Dudu, Lucas Lima, Renato, Gabigol (se entrar) e demais honrem a tradição de camisas de peso.

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