Chega de barbárie!*

Antero Greco

22 de fevereiro de 2013 | 16h04

Mortes provocam dor, luto e, muitas vezes, indignação. Como foi o caso do adolescente boliviano atingido por um sinalizador, enquanto assistia ao jogo entre San Jose e Corinthians, na noite de anteontem. Qualquer pessoa com o mais leve resquício de bom senso e de respeito pela vida ficou impressionada com a estupidez da tragédia. Um desastre que dá o que pensar e que exige uma guinada drástica na maneira como se encaram delitos cometidos em estádios de futebol pela América do Sul.

O choque desencadeia reações positivas, que sacodem o marasmo e ameaçam privilégios e condutas brutais consagradas como rotineiras. Estas devem ser levadas adiante. A comoção ao mesmo tempo estimula uma onda de intolerância e desemboca no raciocínio simplista de que tudo deva ser proibido nos campos de futebol. Postura tão nefasta quanto a dos bandos organizados.

A alegria e a espontaneidade não podem desaparecer das arenas esportivas. Isso seria negação da vida e também uma forma de violência. Não se deve recorrer a medidas autoritárias, em geral oportunistas e vazias. Não cabe exigir uma infinidade de vetos de ocasião – aos bumbos, às bandeiras, às coreografias nas arquibancadas, aos corinhos contra árbitros, às vaias aos jogadores. Estádios devem ser espaços democráticos.

É preciso doutrinar fãs, mostrar-lhes limites, regulados por simples regras de boa convivência, e também escancarar as penas a que se expõem com atitudes estúpidas. A impunidade virou aliada de quem vai a campo para brigar, ferir, matar – e deve ser extirpada. A parcela de vândalos é pequena – portanto, lei e educação neles. A maioria não pode pagar por boçais. Não à barbárie nem à cultura do medo e da repressão generalizada!

Os irresponsáveis que acionaram os sinalizadores cometeram delito grave. Podem alegar que nem de longe lhes passou pela cabeça causar danos e que também correram riscos. Argumento tosco, frágil, cara de pau. Ninguém com lucidez tenta entrar no estádio com artefatos dessa natureza. Não se trata de singelas “chuvas de prata”, inofensivas e festivas, que toda criança pode manejar. Mas de objetos para uso específico e que se transformam em armas. Não há inocência em quem burla a vigilância (ou tem a cumplicidade dela) para carregar tal tipo de tranqueiras para o meio do povo.

Quem age assim se escora na tradição permissiva dos torneios desta banda do Atlântico. Quantos arruaceiros e criminosos fantasiados de torcedores foram presos por atirar pedras, rojões, latas, copos de água, pilhas em adversários, dentro e fora do gramado? Quantos estádios a Conmebol interditou por não darem segurança para visitantes ou por desrespeitarem direitos do consumidor? Quantos times foram excluídos por mau comportamento de seus seguidores? Quantos cartolas foram afastados por conivência ou por ligações com gangues uniformizadas?

Dirigentes mumificados se preocupam com acertos de patrocínio, reeleições eternas, rapapés recíprocos e viagens. E se lixam com padrões de excelência para os campeonatos. Atos de terror são praxe na Libertadores, na Sul-Americana, e não dão em nada! Suspendam clube grande, controlem e punam desordeiros, apliquem suspensões em jogadores desleais pra ver se não ocorrerão mudanças.

A evolução passa pelo comando do futebol, por educação e por ações firmes da Justiça. À espera delas, hordas continuarão a deslocar-se com apoio sabe-se lá de quem, times apelarão para todo tipo de artifício para vencer. E mais jovens morrerão.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 22/2/2013.)

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