Ciclos do futebol*

Antero Greco

19 de julho de 2013 | 12h26

O futebol tem ciclos, como qualquer atividade humana. Há fases de amadurecimento, de alta, de realizações e conquistas, de baixo astral e declínio, de retomada e reconstrução. E, como na vida, até de desaparecimento. Homens morrem (inevitavelmente, como é nosso destino), assim como empresas e clubes (não necessariamente, mas também).

O momento de destaque é do Corinthians, como já foi do São Paulo, do Palmeiras, do Santos, do Flamengo, do Vasco, de acordo com a época. Em um ano e alguns dias, a turma alvinegra se fartou com proezas internacionais – Libertadores, Mundial e Recopa -, fora miudezas como Copa do Brasil, Brasileiro, Paulista, taças que vira e mexe saboreia como o cafezinho quente no bar da esquina.

Lógico, portanto, que esteja em evidência e que aproveite. Por isso, nas temporadas recentes, o Corinthians ganhou espaço na mídia, aumentou o faturamento com publicidade, bilheteria e ações de marketing. Por extensão, se permitiu aventuras no mercado ao contratar jogadores habilidosos e úteis (com as bolas fora de praxe), que contribuem para manter a regularidade do desempenho. Tem estado na boca do povo. E assim o círculo virtuoso tende a estender-se pelas bandas do Parque São Jorge. Por muito ou por pouco tempo? Dependerá da gestão administrativa, da sensibilidade de quem comanda.

A propósito: a cartolagem é tão importante quanto os atletas. Se estes envelhecem e cedem lugar a jovens, pois chega uma hora em que pernas e pulmões não acompanham a rapidez do raciocínio e as exigências do jogo, o mesmo ocorre com dirigentes. Quando o tempo os alcança, o sensato é passar o bastão, dar espaço para ideias e sangue arejados. Caso contrário, prejudicam a entidade, viram motivo de esculhambação e desrespeito. Avaliar a hora de abdicar do poder é gesto de coragem, inteligência e desprendimento.

O Corinthians compreendeu a necessidade da guinada no modo de agir ao cair para a Segunda Divisão no fim de 2007. Não abriu mão de apostar na força da marca, fortíssima. Mas não se caiu na simplória conversa fiada de que a Fiel seria suficiente para garantir o retorno à elite e etc e tal. Discurso bonito, com quê de verdade e um bocado de folclore e imobilismo. Foi à luta.

Decisivo foi abandonar postura provinciana e assumir a grandeza, com atitudes atrevidas em todas as áreas. Várias foram tiros n’água e ainda assim válidas, porque revelavam desejo de sacudir-se. Uma delas, que tocou o torcedor, foi a manutenção de Tite, após o vexame histórico contra o Tolima em 2011. À frente do projeto (aí a palavra faz sentido), liderou o time a ser protagonista. Os fãs festejam, os rivais lamentam. Normal, e assim tem de ser.

O Corinthians de agora é o São Paulo de ontem. Até pouco tempo atrás, tricolores gabavam-se de ser arrojados e de remarem contra corrente e o lugar-comum. Com razão e baseados em fatos e fotos – as diversas Libertadores, os Mundiais, os Brasileiros a enriquecer o acervo de prêmios. Repunham bem o grupo, vendiam em geral com lucro, davam estabilidade à comissão técnica. Mudou demais.

O São Paulo dos últimos anos errou em contratações, perdeu-se nos bastidores (era dos raros a permitir só uma reeleição para presidência) e troca de professor como relés mortais. Tanto abdicou de característica saudável que o presidente, na semana passada, na chegada de Paulo Autuori, listou o entra e sai que havia no Corinthians antes da gestão de Tite, para mostrar que não havia mal algum em que fizesse o mesmo. Na tentativa da ironia, ressaltou o quanto o rival progrediu nesse aspecto e o tanto que o clube dele andou para trás.

Hoje, diretor dá indireta em Rogério Ceni, e vice-versa. Inimaginável em outras eras. É necessária revisão geral no Tricolor, para retomar o ciclo vencedor, que um dia retornará. Até lá, não vai contrariar a lógica, como imaginei possível na crônica de anteontem, e cairá fácil diante de favoritos, como foi no clássico pela Recopa. Cairá até contra não favoritos.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 19/7/2013.)

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