Comissão de notáveis pra receber Gylmar e De Sordi

Antero Greco

26 de agosto de 2013 | 00h16

Imagino a balbúrdia que há no céu nas últimas horas. Nuvens agitadas pra cá e pra lá, raios e trovões sendo cuidadosamente preparados, arquibancadas de sonhos repletas de gente boa numa expectativa só. Anjos, arcanjos, querubins e serafins em polvorosa, num corre-corre só, para deixar tudo arrumado. E são Pedro pomposo, solene, com as chaves de casa nas mãos, pronto para receber Gylmar e De Sordi, hóspedes ilustres.

Não que o Paraíso não tenha estrutura para acolher novos moradores. A turma de cima tem a eternidade de experiência em ajeitar um lugar pra quem merece. A lista de notáveis que se acomodaram por lá é gigantesca, e não para de crescer. Mas não é a todo momento que aparecem, juntos, dois craques, campeões do mundo, legítimos representantes da escola brasileira que entrou para a história como sinônimo de alegria.

Pois De Sordi e Gylmar empreenderam juntos a longa viagem para a glória. Separados por poucas horas, anuladas pela luz que os envolverá. O antigo lateral direito do São Paulo embarcou no sábado. O goleiro de Corinthians e Santos pegou a estrelinha da tarde de domingo. O destino é idêntico para ambos.

Nilton De Sordi foi astro com brilho constante, embora menor do que Gylmar. O estilo correto, sóbrio, eficiente o fez figura carimbada no tricolor e lhe rendeu a condição de titular do Brasil no Mundial da Suécia. Ficou fora da decisão, por uma danada contusão.

E, assim, cedeu espaço para que Djalma Santos fulgurasse na decisão e saísse na foto do campeão. Um desses azares da vida, o que fazer? Mas De Sordi foi importante demais naquela campanha que abriu as portas do sucesso nacional.

Gylmar dos Santos Neves foi, para gente da minha geração e anteriores, nome, sobrenome, apelido e sinônimo de goleiro. Alto, imponente, elegante, seguro foi o terror de atacantes atrevidos, uma muralha nos dois alvinegros que defendeu. Goleiro eterno da seleção. Companheiro, conselheiro, líder. Como esquecer a foto dele a consolar o emocionado Pelé, após a conquista do título? E, em seguida, ele mesmo desabar nas lágrimas? Cenas lindas, humanas.

Fica a saudade por Gylmar e De Sordi. Tristeza? De forma alguma. Eles nos encheram de alegria e serão recebidos no céu por uma comissão de boas-vindas pra lá de generosa. Com o técnico Vicente Feola à frente, a puxar a fila com Castilho, Mauro, Didi, Zózimo, Garrincha, Vavá, Oreco, Orlando, Dida, Joel e Djalma Santos, que chegou outro dia, mas se sente à vontade, porque era um anjo por aqui.

Olhe pra cima, numa noite estrelada, e pense nos shows de bola que tem por lá.

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