Consciência Negra tinha o Joel

Antero Greco

20 de novembro de 2015 | 13h04

Crônica de Roberto Salim*

Neste dia da Consciência Negra, num blog de esportes, seria óbvio falar do título corintiano e dos atletas negros deste time que já foi muito mais do povo. Seria óbvio falar do zagueiro Gil e seu visual Zumbi – com ele na seleção, ao lado de Miranda, os 7 a 1 seriam impensáveis.

Poderíamos falar de Elias, seu otimismo, sua emoção, seu espírito indomável no meio-campo.

Indo para o Palmeiras poderíamos falar do goleiro Aranha, quando ainda jogava no Santos e seu pesadelo dentro do estádio do Grêmio. Já passou? Não, até hoje lembro da mãe do Aranha, numa entrevista em Pouso Alegre, me dizendo: “Chamaram o meu filho de negro fedido, mas após o jogo, tomando banho o suor sai… O cheiro de ódio dessa gente que ofendeu meu filho não sai jamais”.

Poderíamos aqui falar o que a elite fala: o negro só dá certo no esporte e na música, porque precisa só de ritmo e jeito – nada de inteligência.

Enfim, poderíamos falar de uma infinidade de exemplos. Que Djalma Santos foi impedido de entrar numa festa oferecida numa cidade do interior, após uma apresentação do esquadrão do Palmeiras na década de 60. E, então, ninguém do time foi à recepção.

Mas no Dia da Consciência Negra, a nossa lembrança…

A nossa homenagem vai a um homem chamado Joel Rufino. Jogou bola nas praias do rio. Tentou a sorte como profissional. E, nos tempos horríveis da ditadura, até se defendeu profissionalmente jogando bola na Bolívia.

Mas muito mais que jogador de bola, pela qual era apaixonado, Joel Rufino foi um historiador, um filósofo, um exemplo de vida. Joel foi um grande escritor, que contou histórias infantis, resgatou a identidade de escravos, fez palestras. Falava manso, mas suas palavras tinham um peso enorme.

Lembro dele convidado pelo José Trajano para dar uma palestra a nossa equipe antes da viagem para a Copa da África do Sul. “Na primeira vez que fui à África, me espantei, comissárias negras, pilotos negros… Pensei: esse avião não vai subir”.  O avião subiu, Joel Rufino chegou em Gana, viajou pela África inteirinha, pelo mundo todo.

Joel Rufino era realista e sonhador.

Por isso era um campeão.

Joel se foi este ano.

Ficaram seus escritos.

Recomendo a leitura de seus mais de 50 livros.

Dê os infantis para que seus filhos leiam e entendam muito mais o que é o nosso país.

O que é a vida.

*Roberto Salim é jornalista profissional, trabalhou na “Folha de S. Paulo”, no Estadão e por 15 anos foi responsável pelo programa “Histórias do Esporte”, dos canais ESPN.

 

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