Conspiração no ar*

Antero Greco

16 Agosto 2015 | 11h22

É batata: todo ano, à medida que se aproxima o final do Brasileiro, árbitros e eventuais decisões polêmicas que venham a tomar se transformam em tema central de discussões. Superam até os debates em torno dos méritos dos candidatos ao título e dos pecados cometidos pelos atingidos pelo descenso. Os homens do apito concentram as teorias da conspiração, sempre presentes no futebol daqui.

Desta vez, o bafafá começou cedo, mais precisamente no domingo passado, na antepenúltima jornada da primeira metade do campeonato. A largada da temporada de boatos sobre mutretas veio com o pênalti – indiscutível, por sinal – não assinalado para o São Paulo no clássico com o Corinthians (1 a 1). E ganhou força, no meio da semana, com a penalidade marcada para os corintianos em cima da hora, e que lhe garantiu vitória difícil e importante diante do Sport.

Para engrossar o caldo, o Atlético-MG lamentou que lhe tenha sido negado pênalti no jogo em que perdeu para o Grêmio por 2 a 0, em BH. A combinação dos placares, no Mineirão e no Itaquerão, colocou o Corinthians na liderança, um ponto à frente do Galo.

Pronto, armou-se o circo. Ainda nos vestiários do estádio dos 7 a 1 para a Alemanha, o técnico Levir Culpi mordeu a isca, em perguntas que insinuavam estranhas coincidências em benefício corintiano, e largou dúvidas no ar. O coro engrossou com questionamentos na crônica esportiva e, em todas as entrevistas, não faltaram referências às falhas dos árbitros em lances letais.

A conspiração entrou em cena. Para o senso comum, sem meias palavras, tudo armado para levar Tite e a rapaziada dele a mais um título nacional. Uma estreiteza de visão, para dizer o menos e não perder a elegância. Uma indigência esportiva sem tamanho.

Para corroborar a tese da mutreta, na campanha pró-alvinegra, sobram ponderações, que transitam de interesses da televisão, a interferência do ex-presidente Lula! Há quem lembre do escândalo do apito, aquele do Edilson Pereira, em 2005, que obrigou a repetição de várias partidas e teve o Corinthians afinal como campeão. E, logicamente, não pode ficar de fora a CBF.

Que o futebol não é terreno fértil para bem-intencionados, isso até o papa sabe. Que histórias cabeludas se repetem, já intuía o beato José de Anchieta, cinco séculos atrás. Que uma dose de ceticismo faz bem, até Cândido, o otimista padrão de Voltaire, aceitaria.

Muito bem, não se deve mesmo acreditar em muita coisa no mundo da bola. Daí a alardear picaretagem explícita em favor de um time, vai distância, a ser respeitada pela decência e pela sensatez. Até se compreende que o torcedor papagueie o que quiser, fale em roubalheira sem a menor cerimônia. Está no papel dele, não tem responsabilidade alguma; o único compromisso se resume à paixão pelo próprio time.

Chato é ver formador de opinião vir com papo furado de “apito amigo”, em nome de audiência, cliques, bairrismo. Populismo barato e irresponsável, pois alardeia desonestidade sem provas. Antes de sugerir má fé, que se cobre eficiência dos juízes, como o de ontem, no Morumbi, que ignorou pênalti escandaloso do goleiro do São Paulo em favor do Goiás.

Nisso a CBF deve ser apertada. Se bem que pouco se importa com a bolinha doméstica. O negócio é seleção. Tanto que, por causa de amistosos caça-níqueis, diversas equipes ficarão sem titulares por três rodadas. Pois a Série A não para, enquanto a amarelinha sai por aí para ganhar uns trocos. Acha que a CBF vai se preocupar em armar esquemas para o Corinthians – por acaso time de André Sanchez, desafeto de carteirinha de Del Nero. Mais lógico seria que atuasse contra os corintianos…

Gasta-se energia demais com questões que deveriam ser secundárias e se passa por alto pelo trabalho de técnicos e jogadores. Tite recuperou o equilíbrio da equipe, que tem possibilidade real – e méritos – para concluir a fase na ponta. Basta não baixar a guarda na visita ao instável Avaí, na tarde de hoje em Floripa.

*(Minha crônica publicada no Estadão impresso deste domingo, dia 16/8/2015.)