Contra o baixo-astral*

Antero Greco

27 de outubro de 2013 | 00h13

Há jogos nos quais deveria ser proibido o baixo-astral. Pela história, pelos episódios memoráveis, pelos craques que se enfrentaram, certas partidas obrigatoriamente equivaleriam a um recital da Filarmônica de Berlim, de uma apresentação do Bolshoi, de uma exposição de Picasso. Nunca menos do que isso. E jamais o espírito de forrobodó baixaria, em jogadores, torcedores, cronistas esportivos.

Corinthians x Santos está nessa linhagem especial. Só o fato de Pelé ter encarado o rival alvinegro da capital como a vítima preferida na majestosa carreira já tornaria o clássico acontecimento único. Mas foi, também, diante dos corintianos que o Rei perdeu o primeiro pênalti. Se não foi, fica valendo a mesma coisa. Porque, sem consultar alfarrábios ou o deus Google, arrisco cravar que o fenômeno se deu na década de 60 e as mãos consagradas foram as do goleiro Heitor.

Santos e Corinthians já decidiram campeonatos aos montes – o mais recente, o Paulista deste ano. Em determinada ocasião, também uns 50 anos por aí, levaram tanta gente à Vila Belmiro que uma parte da arquibancada ruiu. OEstado publicou as fotos mais dramáticas, captadas pela sensibilidade de Domício Pinheiro, dos maiores repórteres fotógrafos que registraram eventos esportivos. Na Vila, também, Marcelinho Carioca marcou gol de placa na década de 90 do século passado. O confronto mais antigo de São Paulo tem histórias para forrar biblioteca.

Esses parágrafos todos, escritos ao som de imaginários violinos chorosos, servem para dourar o papo a respeito do jogo desta tarde em Araraquara. Pena que não seja no Pacaembu. Local da memorável quebra de tabu do Corinthians, que amargou 13 anos sem vitórias sobre o Santos e só espantou o azar em 1968, num 2 a 0, com gols de Paulo Borges e Flávio. Quem viveu aquilo sabe o que significou tirar toneladas das costas. E Pelé estava em campo, o que tornou o feito ainda mais brilhante. Uma glória.

E hoje? Os dois entram em campo a fim de quê? O Santos tem 43 pontos, flutua pela zona do lusco-fusco, e tem a vaga esperança de beliscar uma vaga para a fase preliminar da Libertadores. Neymar se mandou (ontem jogou pelo Barcelona contra o Real Madrid) e não há ninguém para compensar e saciar a carência praiana. Montillo? Willian José? Cícero? Diz pra mim, por favor.

O Corinthians está com 40 e faz tempo que não decide se avança ou recua. Anda com jeito de que pode encerrar o ano de maneira opaca, ao contrário de 2012. Nesta mesma época do ano, se preparava para disputar o Mundial de Clubes, a Fiel andava ouriçada – e o dólar custava bem menos. Agora, quebra a cabeça para descobrir como fazer gols. A turma de Tite desacostumou a mandar a bola pra rede! Algo tão prosaico – e fundamental – no futebol.
Tite ganhou uns 3 mil fios de cabelos brancos nas últimas semanas. O sorriso nas entrevistas sai contido, amarelo… E, como desgraça pouca é bobagem, ainda teve o pênalti do Pato, aquela bola atrasada pro Dida. O ambiente esquentou no Parque São Jorge, os xerifões de sempre avisaram que “acabou a paz” e prometem fazer barulho. Belo incentivo…

Tite gastou saliva na sexta-feira, espinafrou o Pato (e ficou bravo porque a bronca vazou para a imprensa) e ganhou insônia para armar o ataque. Pelo jeito, vai de Renato Augusto, bom meia, deslocado para a função de centroavante por ter chute forte e calibrado. A responsabilidade por incomodar Aranha será dele. E seja o que Deus quiser. Junto com Emerson, claro. O rapaz anda nervoso além da conta, nem de longe lembra o arisco matador tão decisivo na campanha da Libertadores, não a deste ano, mas a de 2012.

A partida está com cara de coisa maçante? Concordo. Mas, como tarde de domingo não combina com prostração – a noite é diferente –, boto fé que Corinthians e Santos vão surpreender, com velocidade, lindas jogadas, gols. Quem sabe até o Pato não jogue alguns minutos para redimir-se? Um pouco de otimismo sempre faz bem. Conversamos amanhã.

*(Minha crônica publicada apenas na primeira edição do Estado deste domingo, 27/10/2013.)

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