Copa e política*

Antero Greco

14 de março de 2014 | 13h12

Engana-se quem só enxergar o Mundial a ser realizado em nossa casa como evento esportivo, turístico e de grandes negócios. A competição marcada para daqui a três meses vai além da conquista de uma taça ou do muito dinheiro a circular com publicidade, obras, consumo e serviços. No âmbito doméstico, há legado político importante em jogo, e para quem está de olho no poder a atuação da seleção em campo valerá apenas se servir para mantê-lo ou para alcançá-lo.

No ano passado, durante a disputa da Copa das Confederações, os protestos tiveram contorno de espontaneidade, pois vieram no embalo de uma série de manifestações populares contra “tudo o que está aí”. Começaram com a luta por redução em 2o centavos nas tarifas de transporte e se estenderam para outros setores. Sobrou até para a Fifa e para o governo.

Há temor de que voltem com força, enquanto a turma de Felipão e os demais 31 times visitantes estiverem circulando pelo País, entre junho e julho. Ensaios ocorreram tempos atrás – em São Paulo no aniversário da cidade, em 25 de janeiro – e ontem, com o slogan “não vai ter Copa”. Lema estapafúrdio e irreal, pois o torneio será realizado. Com tudo o que se gastou até agora, é questão de honra que façamos o melhor papel possível como anfitriões.

A decepção com promessas não cumpridas, sobretudo a de que seria uma Copa bancada pela iniciativa privada, pegou de surpresa só os que caíram das nuvens em 2013. Já em 2007, quando o Brasil teve candidatura única ratificada, diversos setores da sociedade alertavam para os riscos de farra com dinheiro público, em estádios superdimensionados e projetos atrevidos e fantasiosos que não saíram do papel.

Críticas na imprensa, como as que saíram neste caderno de esportes, caíram no esquecimento ou soaram como atitude de antipatriotismo. Na época, situação e oposição festejaram, de acordo com respectivas conveniências, para não ficar mal com o povo. Euforia idêntica ocorreu em 2009, na escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Quem botou o dedo na ferida agia contra a nação. A cegueira coletiva prevaleceu de novo.

Clamar no deserto é imagem desgastada. Mas foi como me senti – e o mesmo sei de muitos colegas – em diversas crônicas que tiveram os dois eventos como tema. Era escrever e perder-se no vazio. De repente, parece que se fez a luz. Será? Já em 2013, soou obsoleto reclamar contra a Copa, quando o processo se mostrava irreversível. Mesmo assim, no meio político não foram comuns as vozes que engrossaram o coro de quem botou a boca no trombone.

À medida que os debates eleitorais esquentam nos bastidores, o Mundial surge como ponto importante, senão central em campanhas. A presidente Dilma repete, em cada pontapé inicial nas novas praças esportivas ou em encontros oficiais, que teremos a Copa das Copas, a maior de todos os tempos. Na mesma toada segue a conversa do ministro Aldo Rebelo, de Ronaldo, de José Maria Marin. Se falam com convicção ou por necessidade, cabe a cada um de nós avaliar.

Como demanda olhar atento e mente alerta o palavrório de políticos. O deputado federal Romário de Souza Faria, por exemplo, há tempos faz restrições ao Mundial, depois de uma tênue e logo interrompida aproximação com a CBF, ainda no reinado do ex. O craque do tetracampeonato, no entanto, aumentou o tom em declarações recentes, como as de anteontem na ESPN.

Em entrevista ao programa Bate Bola não economizou expressões pesadas contra Blatter, Valcke, Marin e outros, com direito a palavrões. Disse que tem documentação a respeito dos desmandos e os abre a quem pedir. Está feito o pedido, então, deputado. A indignação procede. Porém se deve fazer a ressalva de que o deputado Romário é filiado ao PSB, partido que passou para a oposição e que tem Eduardo Campos como candidato à presidência. Há jogo político; portanto, usemos filtro quando se fala de Copa.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, 14/3/2014.)

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