Copa: só se fala em estádios. E o resto como é que fica?

Antero Greco

26 de fevereiro de 2011 | 13h03

Na maioria das vezes em que vejo ou leio declarações de autoridades a respeito de Copa
do Mundo no Brasil, a conversa gira em torno de estádios. É financiamento pra cá, projetos pra lá, preocupação com atrasos acolá, eventuais elogios alhures. Todos parecem considerar que o torneio se resumirá aos campos de futebol – que são fundamentais, claro, mas não tudo.

A Copa exige eficiente trabalho de infraestrutura dos anfitriões – isso ficou evidente nas seis em que pude acompanhar no local. Na Espanha em 1982, assim como no México, em 1986, houve problemas de deslocamentos, não muito acentuados porque ainda as seleções jogavam em sedes fixas – algumas só saíam de uma cidade ou região se chegasse à semifinal ou final.

A mudança ocorreu em 1994, nos EUA, quando os participantes passaram a fazer viagens pelo país, praticamente numa cidade a cada rodada ou fase. Os americanos tiraram de letra, por causa das conexões aéreas e pela qualidade de suas rodovias. O mesmo aconteceu com os franceses e os alemães. Na Copa da Ásia, aviões, trens e metrôs funcionaram à perfeição. Na África, houve problemas, só não agravados pela presença decepcionante de turistas.

Por aqui, dentro de pouco mais de três anos, as exigências de deslocamentos serão enormes, pelo tamanho do país. Imagine o trabalho que será, por exemplo, um torcedor, uma delegação, a imprensa, terem de sair de Porto Alegre até Natal? Quantas horas levará esse voo? Quais as conexões que deverão ser feitas? Sem contar que por terra é impossível – pela distância e pela irregularidade das nossas rodovias. Dá para fazer a viagem se o sujeito tiver tempo e vier pra cá para apreciar nossas belezas e não para acompanhar os jogos.

E como vão deslocar-se pelas cidades? Imagino os gringos em São Paulo, presos no trânsito na marginal ou em avenidas principais. Imagino o desespero dessa gente nos aeroportos atulhados, acanhados e ultrapassados. Penso como vão acomodar-se em centros menores, com uma rede hoteleira em geral incapaz de atender a forte demanda. É só ver como ficam nossos maiores centros turísticos nas férias, no Carnaval, no fim do ano e em datas especiais.

Pra ser sincero, nem me incomodo com Copa – ela dura na prática 30/40 dias, vai dar dinheiro para muitos e os benefícios são discutíveis. A bendita competição deveria servir para nossas autoridades se coçarem e perceberem que temos problemas gravíssimos no nosso dia-a-dia, independentemente de Mundial ou de Olimpíada. E precisavam debruçar-se sobre projetos sérios em obras viárias, estradas, aeroportos, saneamento. Não por causa dos estrangeiros, mas por nós mesmos.

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