Craques discretos*

Antero Greco

21 de julho de 2013 | 01h33

Há jogadores que deveriam ser multados por maltratarem a bola, com a qual mantêm relação conflituosa, uma incompatibilidade de gênios irreversível. Outros mereceriam prêmios pela delicadeza com que a acariciam e pela capacidade de fazer dela o que, como e onde quiserem, sem sequer provocarem um arranhão superficial no couro que a reveste. Alex e Danilo pertencem à categoria especial, e rara, dos que têm intimidade afetuosa com a rainha do futebol. E, quanto mais passa o tempo, tanto melhor a compreendem. Por isso, há respeito e cumplicidade mútuos.

O segredo da simbiose? Está na cara, ou melhor nos pés: Alex e Danilo jogam demais. Afirmar isso não é fina constatação, muito menos enxergar algo oculto e misterioso, que se revela só a olhares atentos e treinados. Não é descobrir a pólvora ou a extensão do universo e o número exato de estrelas.

Trata-se de obviedade colossal como a qualidade de ambos. Tão óbvia a sabedoria com que se movimentam em campo, tão escandalosa a inteligência da dupla, tão acintosa a elegância deles que às vezes passam batidos. Parecem jogadores comuns, desses que se contam aos milhares, porque fazem proezas com a simplicidade de quem descasca uma mexerica. Jogam bola com a naturalidade com que respiramos. Nem se percebe esforço neles. E, no entanto, desatam cada nó…

Nenhum é garoto. A folhinha de Alex vira pela 36ª vez em setembro; a de Danilo deu a 34ª volta em junho. Alex à paisana, de óculos, e com roupas discretas, lembra um professor de Educação Moral e Cívica com quem tive aulas na época do Científico (hoje, segundo grau), no Liceu Coração de Jesus. (Desculpem a ignorância, mas ainda existe essa matéria na escola?) Danilo, grandalhão, barbudo, me remete ao dono de um depósito de bebidas no Bom Retiro. E é um elogio de minha memória, porque eram gente boa.

Alex conseguiu engrandecer as clássicas camisas de Coritiba, Palmeiras, Cruzeiro, Fenerbahçe, antes de voltar a vestir a verde e branca do Coxa. Com a façanha de ser ídolo em todos os lugares. Se bobear, até no Parma e no Flamengo, onde esteve de passagem. Quando vem a São Paulo e topa com palestrinos, só faltam estender-lhe tapete esmeraldino. Na Turquia, virou estátua. O torcedor reconhece quem tem habilidade e, sobretudo, caráter. E bom caratismo sai pelo ladrão em Alex.

Danilo até hoje tem admiradores no São Paulo. Na quarta-feira fez um dos gols do Corinthians, na decisão da Recopa, e foi um custo encontrar fã tricolor que ousasse vaiá-lo. Como contestar uma estrela que deixou o Morumbi, para uma aventura no Japão, com o apelido de Zidanilo? Xingamentos vão para pernas de pau, para os que juram amor eterno por uma equipe e, na primeira ocasião, dão no pé. Danilo justificou a fama no São Paulo com títulos e uma regularidade impressionante.

Eis o ponto-chave: Alex e Danilo têm constância. São danados para manter o equilíbrio, o desempenho em nível no mínimo acima da média. Já tiveram atuação apagada, sofreram blackout como aquele da madrugada de anteontem em parte de São Paulo. Sumiram. Ora, acontece. Até Picasso fez desenho ruim. Você pensa que Beethoven nunca desafinou?

Alex desliza pelo meio-campo, arma, finaliza e faz gols. Danilo é pau pra toda obra, funciona como lateral, volante, meia, centroavante, se for preciso. Tudo sem alarde, sem gritos, sem espalhafato. Não precisam de artifícios para provarem valor. São da estirpe de Ademir da Guia e Dirceu Lopes, dois magos que fascinaram plateias, no Palmeiras e no Cruzeiro dos anos 1960 e 1970, décadas encantadas no futebol.

Mas, assim como os mágicos de ontem, Alex e Danilo são discretos, não dão declarações bombásticas, não frequentam baladas nem colunas sociais. Surgem na hora do jogo, executam os prodígios rotineiros e voltam a sumir. Como Pete Sampras, como Roger Federer. Tão despretensiosos que são esquecidos para a seleção. Que azar da seleção!

*(Minha crônica da primeira edição do Estado de 22/7/2013, depois trocada por outra, atualizada com São Paulo 0 x Cruzeiro 3.)

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