Cruz de Malta despedaçada

Antero Greco

29 de agosto de 2015 | 21h04

Quem já viveu o rebaixamento do time que ama sabe o quanto dói essa tragédia.  Pior, tem noção de como angustia e desgasta a fase que antecede a queda. É sofrimento sem fim, em toda rodada surge a esperança, sempre menor, de que a salvação virá. Ânimo que some depois de cada apito final, com o placar a apontar outra derrota, e outra e outra mais.

O suplício se repete para o torcedor do Vasco, pela terceira vez em menos de uma década. A equipe mal voltou para a elite, em 2015, e tem enorme possibilidade de regredir novamente. A humilhação se acumula, e a mais recente veio no início da noite deste sábado, com o 1 a 0 para o Figueirense, no Maracanã, gol de Marcão, nos acréscimos, segundos antes do fim.

Com o resultado, o Vasco se mantém afundado na lanterna, com 13 pontos, e com a perspectiva de ver sempre mais distante a possibilidade de sair do Z4. O Figueirense deu uma respirada e tanto com a vitória quando o empate já lhe estava de bom tamanho.

O Vasco jogou para vencer, criou um monte de oportunidades, chegou na cara do gol uma dezena de vezes e… nada. Caiu diante da extraordinária atuação do goleiro Muralha e, sobretudo, perdeu para o nervosismo, a intranquilidade, a falta de confiança em si próprio.

Thalles, Riascos, Rafael Silva em diversos momentos ficaram com o gol à disposição e falharam.  Não porque sejam ruins, mas porque lhes falta coragem, nervos no lugar para empurrar a bola para o gol. Em situação normal, encheriam o pé ou driblariam o goleiro e entrariam com bola e tudo. Como a fase é medonha, perdem o pique, furam, chegam atrasados ou se precipitam, permitem a recuperação dos zagueiros. Inexplicável, pra derrubar mesmo o otimismo. E não há um líder, ninguém em campo capaz de desequilibrar em favor dos cruz-maltinos.

Não adianta atirar pedras em ninguém; o torcedor sabe que o clube há pelo menos uma década vem em decadência continuada, por causa da forma atrasada com que é administrado. Eurico, Dinamite, Eurico de novo são símbolos de como não se deve mais governa um clube. Muito menos vale falar de Jorginho, o treinador com discurso mais para pastor (sem ironia nem preconceito) e menos para quem guiará uma reviravolta tática.

Mas, nesta hora, não dá para ir além de um gesto de solidariedade. E é o que o vascaíno merece: o abraço de quem gosta de futebol e sabe da grandeza do clube.

Despedaçaram a cruz de Malta.

 

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