Dia de Finados no Futebol

Antero Greco

05 Julho 2018 | 21h46

A folhinha tradicional assinala 2 de Novembro como Dia de Finados. Pelo menos em grande parte do Ocidente, essa é data para reverenciar a memória dos que partiram, mandar orações para as almas (paras os que creem) ou para relembrar bons momentos passados.

No meu calendário emocional, o Dia dos Mortos é 5 de julho. Começou numa noite de verão europeu, em 1982, e religiosamente me vem em mente, ano após ano. Naquela jornada fatídica, o Futebol belo, poético, encantador morreu – e o falecimento foi anunciado no placar do Estádio Sarriá, em Barcelona, que apontava 3 para a Itália, 2 para o Brasil.

Naquele campo, que também não existe mais, se decretava o fim de uma era, a da escola brasileira baseada na arte de jogar bola como ninguém. Sei que soa chavão, mas é assim mesmo: o implacável Paolo Rossi, com uma tripleta, enterrava uma ideia de encarar o esporte mais popular do mundo como expressão de alegria, criatividade, molecagem.

Para ser mais injusto ainda, a seleção de Telê Santana não era um amontoado de irresponsáveis, nem bando a jogar de qualquer forma, tampouco um catadão de fim de semana. Ao contrário, era uma orquestra formada por virtuoses, com mestres no manejo da pelota. Até Valdir Peres e Serginho, os menos badalados daquele grupo, eram bons pra caramba. Nos padrões do futebol de hoje, sobrariam em suas equipes.

No entanto, a queda para a Squadra Azzurra derrubou aquele conceito. Dali em diante, espalhou-se entre nós o conceito estúpido de “que não adianta jogar bonito e não vencer”. Depois daquele desastre, até ganhamos mais dois títulos, com bons times, mas sem o fascínio da turma de 1982…

E aquele tropeço parecia improvável de ocorrer. Depois de início vacilante contra a União Soviética (2 a 1, de virada), vieram 4 a 1 na Escócia e 4 a 0 na Nova Zelândia. Primeiro lugar na chave F e passagem para a próxima fase, com Argentina (então campeã mundial) e Itália (bicampeã). As duas rivais haviam pisado na bola e terminaram os grupos em segundo.

A Itália bateu os argentinos por 2 a 1. Em seguida, Falcão, Sócrates, Zico & Cia. lascaram 3 a 1 nos hermanos, com direito a show de bola e vermelho para Maradona. O Brasil ia para o duelo com os italianos precisando só de empate. Ninguém duvidava do sucesso, até Enzo Bearzot, treinador da Azzurra, a quem havia entrevistado dias antes daqueles jogos. “Vamos enfrentar os atuais campeões do mundo e os próximos campeões…”

Lembro que saí do hotel com uma camisa polo azul escura, parecida com a camisa da Itália, só para tirar onda de meus colegas de cobertura pelo “Estadão”. Ainda brinquei com um deles ao afirmar. “Já estou vestido para curtir a vitória dos meus patrícios”, em clara referência à origem dos meus pais. Eu que sou brasileiro do Bom Retiro, graças a Deus…

Assim que cheguei ao estádio, encontrei vários jornalistas italianos, com os quais fiz amizade durante a Copa, porque eu havia sido designado para cobrir a Itália. Um deles me chamou e disse: “Greco, o Brasil precisa ganhar. Pelo bem do futebol.” O sujeito era um visionário…

Eu e meus colegas brasileiros nos ajeitamos na tribuna de imprensa, tiramos fotos, curtimos a festa das torcidas e nos preparamos para grandes reportagens. A bola rolou e com 5 minutos Paolo Rossi fez 1 a 0. Justo ele que vinha de suspensão de dois anos e meio e não havia visto a cor da bola nos jogos anteriores. O doutor Sócrates empatou aos 12, para alívio geral.

Jogo equilibrado, os italianos bem distribuídos em campo, até que uma bola mal tocada por Cerezo sobra para Rossi fazer o segundo aos 25 minutos. Ficou tenso dali em diante, e assim foi até os 23 da etapa final, com o novo empate, desta vez com Falcão. Foi das raras ocasiões em que extravasei durante o trabalho: dei um murro na mesa, gritei e vibrei, junto com milhões de brasileiros. Era a vaga para a semifinal!

Mas Rossi acabou com tudo aos 29, com o terceiro gol. Dali em diante foi uma agonia: o Brasil avançava, a Itália se fechava, ia em contragolpe e ainda marcou o quarto, mal anulado pelo árbitro. A última esperança veio na cabeçada de Oscar já aos 46… Zoff caiu no canto esquerdo, pegou a bola com uma mão. Uma foto do fotógrafo Arnaldo Rizzutti, do Estadão, mostrava que ela estava meio dentro do gol. Por uns gomos, não era o empate.

Ficamos atônitos nas tribunas, assim como a torcida canarinha nas arquibancadas. Meu chefe na época, Luiz Carlos Ramos, olhou pra mim e disse: “Estamos tristes, mas amanhã o jornal sai.” Eu respondi. “Vai à merda, Luiz. Você tem toda razão!” Estávamos lá para contar a história, não para ficarmos tristes.

Fiz as entrevistas, escrevi os textos, com um aperto no coração. Depois de tudo terminado, saímos para jantar, eu, Nelson Cilo e outros colegas. Tomamos vinho, voltamos para o hotel, foi difícil dormir. Alta madrugada, me flagrei com lágrimas, pela seleção, pelo meu trabalho (eu havia ido para a Espanha um mês antes da Copa), pela saudade de meu filho mais velho (tinha apenas quatro meses e há dois eu não o via).

Mas sobretudo pela morte de um tipo de jogo brasileiro que provocava temor e inveja, fora parâmetro e desapareceu. Por isso, desde 1982 em todo 5 de julho dedico alguns minutos para relembrar aquele esquadrão, para agradecer Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho, Júnior, Zico, Cerezo, Falcão, Sócrates, Serginho, Éder e mestre Telê Santana por terem permitido que eu sonhasse.

Obrigado, hoje e sempre. Vocês têm lugar de destaque no coração de quem ama o futebol.

Amém.