De olho no futuro*

Antero Greco

02 de fevereiro de 2015 | 13h00

*(Esta coluna foi publicada no dia 19 de janeiro, quando já era delicado o estado de saúde de Dalmo. Eu a reproduzo aqui como homenagem ao campeão que se foi.)

 

Escrever a respeito de dramas de antigos craques não é novidade e sempre se mostra uma casca de banana para cronistas. Ou o texto fica frio, quase um registro cartorial, ou envereda pelo terreno escorregadio da pieguice. O desafio está na abordagem sensível, carinhosa e, ao mesmo tempo, equilibrada.

Dias atrás, chamou a atenção uma nota publicada, salvo engano ou omissão, na Folha de S. Paulo. A reportagem falava que a família de Dalmo Gaspar colocara à venda a medalha de ouro conquistada na campanha do bi do Mundial de Clubes, em 1963. Dalmo fez parte do mais fabuloso Santos de todos os tempos, aquele de mágicos como Gilmar, Lima, Coutinho, Dorval, Mengálvio, Pepe e um certo Pelé, entre outros.

Dalmo ganhou destaque especial ao marcar o gol – de pênalti – na vitória por 1 a 0 sobre o Milan, no Maracanã, em novembro daquele ano. As duas equipes haviam se enfrentado anteriormente, com resultados de 4 a 2 para cada uma. O tira-teima, ou a negra, foi no Rio. Veja você o prestígio do Santos, time que ultrapassara a fronteira estadual para se tornar paixão nacional. Que escrevo?! Paixão internacional!

O tempo passou, a glória virou flâmulas e fotos na parede, troféus espalhados por alguma cômoda e vários álbuns de recortes amarelados. E muita história na memória. Justamente a memória que agora, aos 82 anos, prega peças em Dalmo. O vigoroso lateral-esquerdo de meio século atrás hoje é um avô frágil, com Mal de Alzheimer, uma provação que torna amarga a velhice. Doença que devora a razão do paciente, mina o emocional dos parentes e deteriora as finanças. Impiedosa.

A filha de Dalmo resolveu abrir mão de lembrança valiosa em troca de R$ 15 mil reais. O dinheiro servirá para pagar despesas de quatro ou cinco meses com o tratamento de um mal sem cura. Depois, terá de apelar para outras alternativas para manter a dignidade do pai.

Dalmo não é caso isolado, que se pinça para mostrar a fragilidade dos holofotes e a necessidade de o jogador forrar bem o pé de meia enquanto sopra vento a favor e o nome está em evidência. Existem por aí inúmeras histórias semelhantes de depressão, miséria, alcoolismo, dependência química, loucura ou abandono que arruinaram ídolos do passado – e passado nem tão remoto como se supõe. Infelizmente.

O astro do Santos viveu uma era em que a projeção era muito maior do que o dinheiro que entrava na conta. Rodou o mundo, conheceu culturas e povos diferentes, era paparicado, colecionava vitórias e elogios. E, sobretudo, jogou muita bola. Mas o saldo bancário nem se compara com os profissionais atuais. Jorra grana no esporte, a ponto de transformar um adolescente mal saído das calças curtas em celebridade, da noite para o dia, se tiver um pouco de classe e empresários habilidosos. A velha guarda vivia da fantasia da fama.

Ao ler as agruras de heróis da infância, de quem buscávamos autógrafos nas figurinhas, faço imediata associação com os rapazes que tecem hoje a história do futebol. Se há money, carvão, bufunfa a ser oferecido pelo trabalho deles, que aproveitem, façam bons contratos, não se deixem enganar por procuradores, investidores, cartolas ou chupins (os falsos amigos dos ilustres). E poupem.

Não temos o direito de criticar fulano por trocar um time por outro, se receber oferta convidativa. Nem de considerá-lo mercenário ou pouco inteligente se topar a aventura de largar o Brasil para embrenhar-se em terras distantes. Como agora, por exemplo, quando Diego Tardelli e Ricardo Goulart preparam as malas para a China e Osvaldo vai para a Arábia. Deixemos os rapazes gozarem dos benefícios da juventude e da popularidade. A vida é deles. Quem de nós não sonha com um convite, na profissão, que leve a engordar as reservas financeiras?

Boa sorte aos que partem – mesmo com o risco de quebrarem a cara e depois voltar. Topadas são da vida. E que se tornem cada vez mais raros episódios como o do Dalmo. Não é justo sofrer quem já nos alegrou.

 

Tendências: