Descobriram a América*

Antero Greco

27 de setembro de 2013 | 13h02

Um tempo atrás, escrevi (várias vezes) que sonhava ver Neymar e qualquer grande jogador brasileiro ficarem por aqui a maior parte da carreira. Dói demais ver moços mal saídos da adolescência partirem para a Europa, como ocorreu com ele mesmo, com Lucas, com Bernard e centenas de outros.

Sei que se trata de remar contra a maré, pois é de bom tom elogiar o Hemisfério Norte quando se fala de futebol (e eles são bons). Mas, fazer o quê, curto nosso joguinho de bola e tive o privilégio de curtir infância e juventude a acompanhar times nacionais tão recheados de craques que dava até indigestão.

Previa que, em breve, Neymar deixaria de ser vilão para boa parte dos torcedores para transformar-se em herói, a estrela em torno da qual girará o brilho da seleção na Copa de 2014. Afinal, ele iria evoluir no Barcelona, em vez de marcar passo no Santos, ficar eternamente no cai-cai e jogar contra times mequetrefes e etc etc etc. A conversa de sempre de quem se sente inferior.

Batata! Bastaram alguns jogos na Espanha para Neymar enveredar pela estrada que deve levá-lo a unanimidade patrícia, ou quase isso. Elogios aparecem às pencas: ele virou solidário, participativo, ousado, rápido, generoso, intuitivo, corajoso. Escolha o adjetivo que quiser que serve. Até mais bonito ficou! E mais cheinho, elegante, fofo.

Transformação radical em três meses de Barça, se tanto. Um novo homem surgiu na Catalunha. Exagero, para corroborar que a escolha de partir foi a mais sábia da jovem vida. Mania que temos de considerar maravilhoso tudo o que ocorre lá fora. Já estamos até a cornetar a tarimba do Messi…

Neymar tem feito na nova equipe, em essência, o que cansou de apresentar no Santos e muitos esnobavam. A diferença, e aí concordo com os xenófilos, está na qualidade dos companheiros. Fica fácil construir jogadas com (e para) o argentino, Xavi, Iniesta e outras figuras. Ele não carrega o time nas costas, não tem a cobrança (e a inveja) daqui, não apanha tanto também. Daí a dizer que ficou bom de bola pelos ares barceloneses vai uma diferença como aquela percorrida pelas caravelas do Colombo que partiram de lá para o Novo Mundo. Neymar é bolão faz tempo.

Torço para que ele brilhe, porque todo grande jogador deve sobressair, e reconheço o valor da Europa. Mas não renego as nossas raízes. O Brasil continua a ser produtor abundante de boleiros de bom nível – e, infelizmente, para exportação ininterrupta e frenética.

Seleção. O comentário acima foi inspirado nas palavras carinhosas de Felipão ao referir-se a Neymar, ontem à tarde, na convocação para jogos em outubro. Justiça se faça, o treinador sempre foi entusiasmado defensor do rapaz, desde que levava bordoadas de zagueiros, fãs e crítica por supostamente apenas simular faltas “e jogar pouco”.

Aborrece ver a reação de recentes aduladores do Neymar, que agora o enxergam como fora de série, maduro e o blablabá de sempre. Agem assim para aderir ao que constata o técnico da seleção e para se mostrarem alinhados e atualizados com os ventos de fora. Fico com o que comentaria o Toninho Cazzeguai, filósofo dos campos de várzea do Bom Retiro: “Descobriram a América.”

A propósito de seleção: Pato tem jogado uma bolinha murcha que não o credencia a vestir a amarelinha. Ou Felipão aposta em milagre da ressurreição do atacante ou apenas está a guardar o lugar de Fred. Outra figura decorativa é Lucas.

Bola x pancada. Defendo o futebol brasileiro, não a baixaria. Os rapazes de cá pelo jeito têm visto muito MMA, a versão moderninha da inocente e simpática luta livre, e largam pontapés, tapas, cotoveladas e agarrões nos adversários nas divididas. Sob a alegação de que era jogo decisivo, atletas de Corinthians e Grêmio se preocuparam mais com agressões mútuas do que com jogadas de gol no empate por 0 a 0, anteontem, pela Copa do Brasil. Um estrupício, que depõe contra eles.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 27/9/2013.)

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