Diego Costa e a pátria

Antero Greco

29 de outubro de 2013 | 22h11

A opção de Diego Costa pela seleção da Espanha está dando o que falar. É o bafafá do dia, no noticiário e nos foruns de discussão. Muitos acham que ele fez bem em alinharse com os campeões do mundo e ignorar convocação para defender o Brasil. Muitas, ao contrário, têm certeza de que se trata de um traidor da pátria, um mercenário.

Fico com o primeiro grupo. Por questão de princípio. Cada um tem o direito de definir os passos que pretende seguir na vida. Se, adiante, a escolha não se mostrar a mais acertada, tudo bem. É da vida. Melhor ser dono do próprio nariz do que curvar-se diante de pressões e sentir-se péssimo, mesmo se aparentemente obtiver sucesso.

Diego Costa saiu daqui novinho, sem raiz com equipes nacionais. Perambulou por Portugal e Espanha até se acertar no Atlético de Madri. Antes, não chamava a atenção de nenhum treinador que passou pela seleção – Dunga, Mano ou o próprio Felipão. Bastaram uns gols na Espanha, um punhado de elogios e foi lembrado para dois amistosos, no começo do ano. Entrou em campo alguns minutos contra Itália e Rússia.

Dali em diante, mais nada. Silêncio em torno de Diego Costa. Em seu lugar, foram lembrados Fred, Damião, Jô, Pato e algum menos votado que não me vem em mente. Isso mesmo, o Pato, que não tem jogado bulhufas, teve diversas chances.

O barulho em torno de Diego Costa aumentou quando surgiram rumores de que teria chance na seleção espanhola. A CBF achou que era conversa fiada, mas caiu no conto de uma mudança de regra da Fifa, que agora aceita trocas de nacionalidade desde que o jogador tenha no máximo participado de amistosos e não jogos oficiais. Caso de Diego.

O tema dá margem para muita discussão – desde oportunismo até patriotismo e decisões profissionais. E tenho uma série de perguntas a me escarafunchar a mente. Por exemplo: como determinar quando um jogador se sente estrangeiro? Há um tempo para isso? Um ano, dois, três, cinco? Há imigrantes que passam a vida fora sempre a sentir-se estrangeiro. Outros adotam o novo país como sua pátria.

Há, também, os que querem naturalizar-se por questão de sobrevivência, de direitos. A pátria, para esses, é a terra em que ganham o pão. Assim funciona até com cientistas, pesquisadores. Por que com jogador de futebol deveria ser diferente? Quem disse que amor ao país de origem se mede por vestir uma camisa de seleção? O que representam hoje em dias as seleções?

Teme-se que casos como o de Diego Costa escancarem chance de países com muito dinheiro contratarem os jogadores que quiserem para se naturalizarem. Ok, uma hipótese viável. Mas há “produtores” de craques tão pródigos que, mesmo com baixas, não ficarão mais frágeis. Inclui nesta categoria Brasil e Argentina.

E, para fechar a reflexão, poderíamos ter essa ira santa contra corruptos, que são os grandes traidores da pátria. Esses não só não cobrados, como ainda em muitos casos são chamados de “doutor”.

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