Dois anos de Itália: e Thiago Motta já pode jogar na Azzurra

Antero Greco

07 de fevereiro de 2011 | 18h17

Os clubes europeus já há algum tempo aboliram o sentido de “nacional”, ao terem em seus elencos inúmeros estrangeiros. Existem casos radicais, como o da Internazionale de Milão, que costuma apresentar-se com frequência sem nenhum jogador nativo. A moda não é nova, infiltra-se nas seleções, e a Fifa ameaçou intervir. Os donos da bola enxergavam abusos nas naturalizações de jogadores. Consideravam oportunistas e permissivos diversos casos de atletas que ganhavam nova nacionalidade, apenas para que fossem aproveitados em competições internacionais.

Pois a Fifa acaba de autorizar a inclusão de Thiago Motta no grupo de atletas convocados por Cesare Prandelli para defenderem a Squadra Azzurra no amistoso com a Alemanha, nesta quarta-feira. O meia da Inter, paulista de nascimento, mas com passaporte italiano, tinha sua presença ameaçada porque em 2003 defendeu a seleção brasileira na Copa Oro, disputada no México. Como o país foi representado por uma delegação de Sub-23, a Fifa entendeu que não se tratou de time principal.

O que me chamou a atenção não foi a decisão da Fifa – os cartolas lá que se entendam, embora para todos os efeitos se tratou de torneio oficial. Daí… O detalhe que me surpreendeu foi a rapidez com que Thiago virou opção para atuar numa equipe quatro vezes campeã do mundo e com dois vices no currículo. Ele desembarcou na Itália há dois anos e tanto (Genoa e Inter), depois de passar oito temporadas na Espanha, e já é imprescindível?!

Não sou contra estrangeiros defenderem a seleção dos países em que trabalhem e vivam. É uma extensão da rotina diária, até um direito deles. Mais uma manifestação de cidadania e inclusão. Mas entendo que seja necessária uma ligação afetiva, histórica, cultural, real para usar o uniforme da nova pátria. Não me convencem amores repentinos e arrebatadores por uma terra. Não se formam laços profundos em pouco tempo.

O caso do Amauri (hoje no Parma) despertou polêmica parecida, mas menos infundada. Afinal, mora na Itália há uma década, sempre jogou por equipes locais e só vagamente tinha esperança de ser lembrado por Dunga, como de fato foi – e uma vez apenas (recusou o chamado). Sua presença no elenco da Azzurra soou natural, assim como alguns anos atrás Paulo Rink optou pela seleção da Alemanha.

Espantosa, também, é a facilidade com que jogadores conseguem passaportes europeus. Para eles a burocracia anda veloz. Por mínimo que seja o tempo de vivência em determinado país, ou com tênues laços sanguíneos com a terra, logo são alçados a cidadãos locais. Nos mesmos países que tratam de dificultar a entrada de trabalhadores menos qualificados, quando não os enxotam como lixo descartável.

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