E de futebol, ninguém mais vai falar?

Antero Greco

22 de novembro de 2010 | 17h33

Faltam duas rodadas para o encerramento do Brasileiro, a briga pelo título está aberta, há vários times na rota da Libertadores e outros se debatem para fugir do rebaixamento. Emoção, portanto, não falta para o que resta de temporada. Mas há quinze dias pelo menos não se fala de outra coisa que não sejam os erros dos árbitros, favorecimentos ou perseguição a este ou àquele clube, fora o dilema de entregar ou não para prejudicar rivais regionais. O futebol parece que ficou em segundo plano, numa inversão de valores absurda.

Não sou ingênuo de achar que tudo é maravilhoso, ético e transparente, especialmente em reta final de competição. Também não engulo grande parte das polêmicas que se criam neste momento. Há protestos justos, erros de fato constrangedores. Mas há chiadeiras que encobrem incompetência de clubes. Fica mais fácil apontar falhas de juízes, ou má vontade dos adversários, do que assumir as próprias limitações e erros.

Melhor vender para o torcedor a idéia de que o time não chegou ao título porque foi garfado do que reconhecer que talvez tenha faltado planejamento o que o elenco pisou na bola ao longo do campeonato. Nestas horas, ainda, sobressaem as teorias da conspiração e a cultura do menosprezo. É simples dizer que meu concorrente foi beneficiado, que o título está manchado por isto ou por aquilo. Dor de cotovelo é universal e atemporal.

A polêmica faz parte do futebol, mas a essência da discussão deveria concentrar-se no desempenho das equipes. Em seus erros e acertos. O Corinthians, por exemplo. Teve sobressaltos durante o ano, quase perde o rumo, e no entanto se reorganizou com a chegada de Tite e a recuperação de Ronaldo. Agora, mais do que lamentar a surra do São Paulo diante do Fluminense, deveria olhar para si e constatar que lhe faltou eficiência contra o Vitória e que precisa de um substituto à altura para Ronaldo no ataque. Sem o Fenômeno, que está há anos-luz de sua melhor forma, vira um time comum.

O Fluminense depende de suas forças, contra Palmeiras e Guarani, e não poderá ser contestado, se chegar ao título. Afinal, liderou grande parte das 38 rodadas. Mesmo assim, cometeu erros, vacilou em partidas importantes (o empate com o Goiás, na semana passada), sofreu com baixas significativas (como as de Emerson e a longa ausência de Fred). Tem como compensação a dedicação e a constância de Conca, o destaque nacional de 2010.

O olhar pode voltar-se para outros times famosos e que vivem situação inusitada por seus atos e não pela atuação predatória do apito ou de outras “forças ocultas”. O São Paulo desperdiçou a temporada com algumas contratações equivocadas, com a demora para trocar Ricardo Gomes e com o foco centrado em ter o Morumbi como sede para 2014. Por isso, não conquistou nada e terá de conformar-se com a Copa do Brasil e a Sul-Americana em 2011.

O Santos seria a sensação do ano, se tivesse mantido o time do primeiro semestre. Abriu mão de peças valiosas, perdeu Ganso por contusão e saiu dos trilhos quando Neymar e Dorival Júnior se desentenderam. O Palmeiras fez apostas erradas, mas pode salvar a temporada se vier a conquistar a Sul-Americana. O Flamengo se iludiu com o título nacional do ano passado, se desestruturou e viveu até o final de semana a ameaça de rebaixamento. O Inter tem, em minha opinião, o melhor elenco, e estaria na briga pelo título, se não relaxasse depois da Libertadores. Só que tem o Mundial de clubes em seu horizonte.

E por aí vai. Temas sobre futebol não faltam. Dá para esquecer um pouco dos juízes e outras questões paralelas. Sem enfiar a cabeça na terra, como avestruzes. Mas vamos curtir um pouco a emoção que o jogo de bola proporciona, apesar de tudo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.