E o tempo passa…

Antero Greco

20 de fevereiro de 2014 | 15h50

Pra início de conversa, fui inaugurado em 54, no Bom Retiro. Em 64, primeira década completada, ainda com calças curtas e uns gambetinhos, terminei o primário no Externato Santo Eduardo e acompanhei, sem entender, o Golpe. Só achei bacana o fato de não ter tido dois dias de aulas.

Jovenzinho, magrelo, cabeludo e barbudo, em 74, comecei a namorar minha mulher, entre aulas eventuais e muitas partidas de pingue-pingue na Escola de Comunicações da USP. Naquele ano, também, entrei no Estadão, como revisor nas madrugadas, e realizava um sonho de criança, que dura até hoje. (Foi num 25 de maio, e farei um texto a respeito. Não é ameaça…) Em 84, minha filha festejou o primeiro aniversário.

Em 94, saí do Estadão pela segunda vez, na única demissão da minha carreira. Foi doído, sem sequer um aperto de mão e, felizmente, sem tempo de curtir fossa, pois logo em seguida o Arnaldo Branco me acolheu no “Diário Popular”. Em 2004, já de volta ao Estadão, virei minha folhinha pela 50ª vez e me senti de novo aninhado, ao lado de grandes amigos da editoria de Esportes.

Agora, em 2014, não sei direito o que me aguarda. Preparo-me para cobrir outro Mundial, o décimo desde que passei a conviver com o burburinho delicioso de redações – sete como enviado especial e três na retaguarda. A barriga expandiu-se um pouco, os cabelos continuam castanhos (naturais!) e lá vem o calendário a mostrar que outra década se fechará. “When I get older, loosing my hair…When I’m sixty four.” Beatles… Acho que não vou ficar careca, não.

Mas este ano representa muito pra uma aventura singular e duradoura. E que, como tudo que se mantém por muito tempo, também implica alguma turbulência. (Como os 40 com minha mulher e com o Estadão.) Acabo de arredondar 20 de ESPN! Meu Deus, exclamação!, com a licença de Roberto Avallone.

Caramba, lembro nitidamente do Laércio Roma a telefonar pra mim, em janeiro de 94, e perguntar se queria trabalhar no “Cartão Verde”, porque o Trajano estava metido na implantação de um canal de tevê a cabo especializado em esportes e ia sair da Cultura. Aceitei na hora. Iria atuar ao lado de Armando Nogueira e Flávio Prado. Que responsabilidade!

O convite morreu no dia seguinte, pois o Trajano se acertou com a turma da Cultura e resolveu ficar. Daí o Laércio me mandou falar com o Trajano, que foi rápido e rasteiro, no encontro que tivemos numa salinha ao lado do restaurante no alto do prédio da MTV, no Sumaré. “Você ia me substituir no Cartão Verde, então fica no meu lugar aqui, como comentarista.” Mal sabia o Trajano o que arrumava… Ele me inventou na tevê.

Era o pontapé inicial da TVA Esportes, da Editora Abril. Trajano pretendia contar com uma turma de jornalistas, para marcar a vocação informativa do canal. Nivaldo Prieto narrava, Paulo Calçade e Gilvan Ribeiro eram os repórteres, a Cris Freitas produzia, o Edu Souza editava, a Vilma Maciel coordenava. Talvez as funções não fossem bem essas, e havia outras pessoas, mas minha memória não é exata. Sei que entraram alegremente no barco.

Com empolgação fora do comum (como na vida toda), o Trajano chefiava a incipiente equipe, com o Júlio Bartolo na direção. Eu receberia 150 URVs para cada participação. Fechado. E toca a fazer Copa do Brasil, Campeonato Paulista, Brasileiro (com uma hora de delay), amistosos. E logo vieram Campeonato Italiano, Holandês, Copa dos Campeões, Campeonato Americano, Japonês…

Frequentei estádios como nunca antes neste país (epa, esta frase é de outro), perdi o medo do microfone, me soltei. Era escalado para todas as transmissões, incluídas as de futebol feminino, Copa São Paulo de Juniores, Campeonato Alemão, o Argentino, a Libertadores, Copa da África, o Francês. Ajudei a escrever a primeira edição do “Futebol no Mundo”. Sou o jornalista da casa com mais tempo no ar, ininterruptamente, com esses 20 anos de tanta produção boa.

Vivi situações curiosas (numa vez quase apanhei no Palestra Itália, noutra gravei três jogos em seguida, comentei um segundo tempo antes do primeiro), transmiti centenas de jogos com o Prieto, Milton Leite, Palomino, Paulo Soares, Cledi Oliveira, Cacá Fernando e com todos os demais que vieram. Estive na estreia do “Linha de Passe”, do “Bate Bola Com o Assinante”. A cobertura do Mundial de 1998 foi emocionante e heroica… e nossas madrugadas no ar ao vivo.

Um episódio importante veio no final de 2000, quando voltei para o Estadão e fiquei com tempo livre para a tevê apenas à noite. Me colocaram no “30 Minutos”, jornal que fechava o dia, rebatizado como “SportSCenter”, para seguir a marca internacional e chique da ESPN. O Volpi, com sua voz incomparável, apresentava. Depois, por acaso, o Amigão fez algumas edições comigo.

A parceria com o Amigão logo deu resultado, vieram as primeiras risadas, o retorno do público. Nestes 13 anos de lutas no “SportSCenter”, ele virou minha cara metade no vídeo (epa, epa, sem interpretações dúbias!). Posso dizer, sem presunção nem esnobismo, que somos dois símbolos do canal, como companheiros pesos pesados como Trajano (alma e cérebro da ESPN por tantos anos), Palomino (o sucessor, com um desafio e tanto), Juca Kfouri, PVC, Calçade, Mauro, Paulo Andrade, os Andrés (Kfouri e Plihal). E mais a turma que vem subindo, subindo…

Gostoso andar por aí e ser cumprimentado com intimidade e respeito pelas pessoas. Antes, os assinantes eram da “Classe A”. Hoje englobam de diretor de banco a caixa, de jogadores a porteiros, de médicos a garçons, de advogados a manobristas, frentistas, comerciantes. Fico até sem jeito quando noto as pessoas a me olharem. Em 99% dos casos, homens… eita!

Há momentos gozados. Como numa vez em que um sujeito me deu uma fechada no trânsito, eu soltei um palavrão cabeludo e ele disse: “Perdeu um fã”. Azar, mas ele foi imprudente. Ou numa madrugada em que desviei de um saco de lixo e peguei de raspão um carro que vinha em sentido contrário. Só tocamos os retrovisores. Paro, desço, me desculpo e o sujeito: “Antero Greco?! Rapaz, gosto de você. Tá tudo bem? Não aconteceu nada? Puxa que legal te encontrar…”

O carinho compensa até pequenas frustrações do dia a dia. Por exemplo, imaginei correr mundo com o microfone da ESPN, em coberturas aqui e ali, vendo competições de perto. Sempre gostei de rua, porque nela está a vida. Mas o desejo se limitou a esporádicas andanças pelos estádios daqui, com raras incursões por acolá. (A última, em 2011, numa bela viagem para Milão.)

Muitas vezes, dá vontade de sair do estúdio e juntar-me aos colegas, quando os vejo em Olimpíadas, em Pan-Americanos, em etapas decisivas da Champions, ou só a rodar pelo Brasil em reportagens rotineiras. Para determinadas coberturas já não tenho ilusões, e é da vida mesmo; o tempo nos atropela. Para outras, continuo a sonhar, e estou pronto para a batalha, se for chamado, convocado, lembrado. Quando bate aperto, mais ainda me divirto com o Amigão! Sacudo o baixo-astral.

Neste tempo, conheci gente bacana, da segurança ao figurino, dos câmeras à Maria do café, da turma da técnica aos motoristas. Fora a moçada da redação, do site, da rádio (na qual tive passagem-relâmpago). O pessoal da administração, do financeiro, da publicidade. Não vejo ninguém como desafeto e muito menos, Deus me livre!, como inimigo. Espero que a recíproca seja verdadeira, embora sei que pareço ranzinza e chorão em certas oportunidades.

A ESPN cresceu tanto, tem tantas caras novas que, por eu ser da noite, fico até inibido quando tenho de aparecer na redação durante o dia. Dá a impressão de que estou a atrapalhar o serviço. Agora me dei conta: não tenho armário, mesa, nem computador. Nunca fui à Disney pela firma. Não conheço a sucursal do Rio. Sou tão próximo e tão distante. Por entrar no ar bem tarde, fica a sensação de ausência. Há quem exclame, se estou por lá fora do horário habitual. “Há quanto tempo…” E estou no ar todas as noites. Chuif! Faz parte do folclore, levo na boa. Minha contribuição está no dia a dia. Ou no noite a noite, no madrugada a madrugada.

Se fosse fazer justiça, além dos que citei acima deveria elencar dezenas de nomes, de gente que está lá ou que já saiu: o Bigode, o Helvídio, o Malia, o Galã, o Fred, o Dudu, a Denise Elias, a Elys Marina, o Cacá Martins, o João Simões, o Denis, o Flavinho Gomes, o João Canalha, o Regi, o Gui, o Unzelte, o Victorino, o Alemão Kotscho, o RR …

Sei que dou mancada, porque escaparão muitos outros amigos. Wenzel, Rogério, Nardini, Wagninho, Jaú, Thiaginho, Thiagão, Senise … O Andrezinho, o Anderson, o Hércules, o Luizinho Negodoce, o Paulinho, o Madeira, o Preá, a Duda, a Dadá, a Flávia, a Manu. Vixi, quantos!

Por isso, fora o Trajano (caso especialíssimo) escolho um jornalista como ícone, síntese de uma ESPN combativa, independente, informativa, opinativa, que me fez crescer e à qual tenho sido fiel. A fera é Roberto Salim, o maior repórter que conheci nestes 40 anos de carreira. Maluco, íntegro, sério, brincalhão, metódico, inquieto. Amigo de todas as horas. Um gênio. Ele é tudo que a ESPN foi, é e torço para que seja sempre. (Outra ‘culpa’ do Trajano…)

Por mim, a ESPN terá de me aturar muito tempo ainda, da mesma forma que o Estadão, porque não largo o osso tão facilmente. Só quando ficar velhinho, desde que a gastrite e dores várias deixem. Assim como minha mulher carregará este fardo (leve, vai) por pelo menos mais uns 40 anos. Amém e obrigado.

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