E se der zebra*

Antero Greco

24 de junho de 2013 | 12h58

Você espera que dê Brasil x Espanha na decisão da Copa das Confederações? Eu também. Desde a definição dos oito participantes do torneio, virou sentimento geral por aqui que ocorra o encontro da seleção com os campeões do mundo no ato derradeiro, domingo, no Maracanã. Mais por espírito de afirmação, para consolidar a impressão de que, se a turma de Felipão passar pela tropa harmoniosa de Xavi e Iniesta, elevará moral para a competição que vale, a de 2014. Vá lá que se trata de desafios distintos, mas quem disse que não é bom ganhar de time badalado? E não há, hoje em dia, quem ofusque o brilho da ex-Fúria.

O choque hispano-brasileiro não é pouco provável. Ao contrário, desponta como a tendência lógica. As duas equipes só fizeram confirmar, na primeira parte, o favoritismo prévio, com três vitórias e a liderança dos respectivos grupos. O Brasil aos poucos se ajusta, e apresentou sinais satisfatórios de maturidade nos 4 a 2 sobre a Itália, no sábado, em Salvador. Por favor, não confunda com trabalho pronto e acabado para fazer a festa do hexa. Enveredou por um caminho bom, com muito a percorrer. Aplausos, sem exageros.

A Espanha encanta sempre, e repete nos últimos anos nível de excelência magnífico, comprovados e carimbados com duas Eurocopas e o título de 2010 na África do Sul. Para variar se divertiu, agora nos 3 a 0 diante da Nigéria, ontem à tarde, em Fortaleza. Teve tanta segurança do resultado positivo, a ponto de relaxar e sofrer alguns sustos dos africanos. Só ameaça mesmo.

Alguém, no entanto, pensou na possibilidade de dar zebra na semifinal? Ou zebras? Admito que me passou pela cabeça o risco de a “final dos sonhos” (às vezes, gosto de hipérboles) melar por causa de Uruguai e Itália. Ambas não são fortalezas, tampouco galinhas mortas ou seleções descartáveis. Entram como franco-atiradoras – e eis uma condição cômoda para quem tem história e títulos pra dar e vender. E perigosas para os adversários.

Não considere irrelevante o fato de os confrontos serem entre times do mesmo continente. Clássicos regionais costumam caracterizar-se por imprevisibilidade, devido à alta carga de rivalidade, semelhanças esportiva e culturais e outros ingredientes particulares. Tenho certeza de que alguém estará a lembrar o Maracanazo de 1950, por causa do jogo com o Uruguai – e, se o Brasil perder, na quinta-feira manchetes falarão de Mineirazo. No caso da Azzurra x Vermelha, será a “vingança da Euro” – no ano passado, os italianos apanharam de 4 a 0, fora o baile.

O Uruguai usa a Copa das Confederações como preparação intensiva para as rodadas que restam nas Eliminatórias na América do Sul. A classificação para o Mundial corre risco e o técnico Oscar Tabárez aposta na arrancada a partir do torneio destes dias. Peças-chaves como Muslera, Cavani, Gargano, Forlán, Cáceres, Pereira, Luiz Suarez têm sido exigidos e observados. Essa turma pode dar trabalho na quarta.

A Itália tem comportamento dúbio, pois faz e toma muitos gols (oito). Se a defesa não é ponto alto, compensa com o talento de Balotelli e a aplicação de Giacherini e Giovinco, reservas que funcionam. Contra a Espanha, terá De Rossi de volta e fica na torcida por Pirlo, o maestro. Cesare Prandelli tem elenco mediano, longe de formações lendárias; no entanto, não se deve jamais menosprezar a capacidade de reação italiana. Vai ser jogo pegado.

Não é para ser do contra. Mas uma zebrinha até que iria bem, não?

Solidariedade. Taiti saiu no lucro com a Copa das Confederações. Não me enganei, sei que leva pra casa um balaio cheio de gols (24 contra e um a favor). Como patinho feio, cativou o público pela descontração e simplicidade. Jogadores e comissão técnica pareciam mais turistas em férias do que participantes de um evento da Fifa, ora pois. Bom, na prática, sabiam que esse era o papel que lhes cabia. Os torcedores ficaram ao lado dos mais fracos. Quem dera fosse assim no nosso dia a dia…

*(Minha crônica no Estado de hoje,  segunda-feira, 24/6/2013.)

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