Emerson xinga o juiz e pega seis jogos. Era para tanto?

Antero Greco

14 de setembro de 2012 | 20h35

O sujeito quando decide ser juiz de futebol tem de botar na cabeça a primeira lição: vai ser xingado de tudo quanto é nome, tenha ou não desempenho impecável. Raramente um árbitro agrada, pois a polêmica, a divergência, a provocação formam a base do futebol. No mínimo, o torcedor vai rasgar o verbo pra cima dele só pra desopilar o fígado. É assim, é da vida.

Mas, como vivemos tempos de politicamente correto até para dar bom dia ou pedir licença, agora qualquer atitude de jogador vira motivo para processo nos tribunais esportivos, quiçá na Justiça Comum. O que mais se vê em campo é juiz dar cartão amarelo para o boleiro que o “desrespeitou” do que punir um atleta que desça a ripa no adversário.

E suas senhorias, em geral, contam com o apoio de ex-colegas que agora empunham microfone. O que não falta é antigo juiz dizendo que tem de aplicar amarelo, “para não perder o controle do jogo”. Como se os homens de preto fossem o centro do espetáculo. Pode conferir, isso acontece a todo momento, em rede nacional.

Agora vem do tribunal esportivo demonstração de como os melindres desembocam em absurdos. Emerson Sheik foi suspenso por seis rodadas porque, ao ser expulso em recente jogo do Corinthians com o Atlético-MG, mandou uns palavrões para Péricles Bassols enquanto enrolava pra sair de campo. Falou as coisas de sempre, mais velhas do que o próprio futebol.

O nome foi parar na súmula, o STJD reuniu-se nesta sexta-feira, ouviu a argumentação da acusação e chegou à conclusão de que o atacante deveria pegar esse gancho e ainda pagar multa de R$ 20 mil. Assim, se dá uma lição em todos os que se atreverem a abusar do linguajar quando se referirem à autoridade máxima no gramado.

Ninguém gosta de ser xingado – eu não, você também, o juiz tampouco. Nem acho o Sheik um exemplo de cavalheiro. Ao contrário, ele é matreiro. Mas, caramba, o tratamento entre árbitros e jogadores historicamente não prima pela cortesia. Pergunte a ex-árbitros e a quem vive no meio como são comuns os diálogos ríspidos, a troca de palavras pesadas, as ofensas, que na maioria são da boca pra fora.

Exceto em casos extremamente graves, ninguém leva isso adiante. Nem os tribunais. No máximo, são aplicadas advertências, multas simbólicas, um jogo de suspensão e olhe lá. Mas seis?! Um exagero. O espanto aumenta na medida em que casos semelhantes a esse muitas vezes ficam só nas reprimendas brandas que citei acima. Por que teve de ser diferente com Emerson?

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