Enfim, Léo aprende que franqueza não combina com futebol

Antero Greco

11 de setembro de 2012 | 13h20

Léo tem 37 anos, muito tempo de carreira, e só agora percebeu que não se pode ser sincero no futebol. O lateral do Santos soltou o verbo, contra diretoria e parceiros, após o jogo com o São Paulo, ao sair em defesa de Ganso. Ele disse que a demora na decisão a respeito do destino do amigo era novela mexicana e desrespeito com quem já foi campeão pelo clube.

Declaração forte e justa, corajosa e transparente, de quem sabe que os desdobramentos, bons e ruins, sempre atingem o jogador. O rompante de franqueza foi abortado 24 horas depois. Cartolas alvinegros não gostaram da postura de Léo, que se viu obrigado a dar marcha à-ré, pediu desculpas e deu explicações adicionais nada convincentes.

Entendo o constrangimento do atleta. Como funcionário do clube, ficou em saia-justa e forçado a desdizer-se. O primeiro impacto, porém, é o que conta. No domingo, Léo externou o que ele e seus colegas de profissão sentem em situações como à que vive o Ganso. Há muitos interesses em cena, financeiros sobretudo, e todas as partes andam melindradas.

O gesto de Léo deixou no ar – isso é interpretação minha – suspeita maior em torno da contusão de Ganso. Não vi exames aos quais se submeteu, não sou médico e há apenas a informação oficial do Santos. No mínimo, foi uma extraordinária conjunção de azar o meia machucar-se depois de ser vaiado pela torcida e no auge das discussões em torno de eventual transferência da Vila para o Morumbi. Dali em diante, sumiu do mapa.

Outra constatação que se tira do desabafo de Léo: uma das regras de sobrevivência na vida corporativa é a dissimulação, reforçada por silêncio ou subserviência. Por mais que manuais de bom relacionamento digam o contrário, sinceridade não é bem-vinda no trabalho, atrapalha.

Fosse um operário comum, talvez a esta altura Léo estaria com a carteira de trabalho no RH para dar baixa. Melhor, então, calar-se, porque todos têm contas a pagar e sabem onde dói o calo. E assim se criam gerações de medrosos e mudos.

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