Entre a cruz e a espada*

Antero Greco

31 de março de 2013 | 12h13

O resultado do clássico que São Paulo e Corinthians fazem logo mais não vai alterar a vida de nenhum dos dois no Campeonato Paulista. A classificação para a fase seguinte é tão certa quanto afirmar que hoje se comemora a Páscoa. Interessa saber em qual posição cada um terminará após 19 rodadas. Não há o que temer, pelo menos no torneio paroquial.

Mas o duelo no Morumbi importa – e muito. Em primeiro lugar, porque se trata na atualidade da rivalidade mais acirrada por estas bandas. Os clubes cresceram demais, nas últimas décadas, e acumulam títulos, torcidas, provocações e gozações. Não faz bem, nem para um lado para outro, vacilar no Majestoso. Questão de princípios e autoestima.

Por extensão, o desempenho neste domingo especial terá reflexos no ânimo de cada turma para desafios marcados no meio de semana pela Libertadores. E compromissos decisivos, sobretudo para o São Paulo. O time de Ney Franco está por um fio na competição, tem 4 pontos (contra 12 do classificado Atlético) e na quinta enfrenta em La Paz dois adversários: o The Strongest, não tão forte assim, e a altitude, essa sim danada para derrubar favoritos. Até empate pode arrasar com as chances de classificação, dependendo do que tiver ocorrido um dia antes no jogo que o Galo fará em Belo Horizonte com o Arsenal.

A pressão sobre o treinador tricolor diminuiu um tico, pois a vida no estadual segue mansa. O nó está no plano internacional. Pode contar muito pouco terminar em primeiro lugar por aqui e ver fugir o objetivo maior. Por isso, Ney enfrenta dilema para definir a escalação. Se optar por time reserva, pode levar uma coça e carregar a bronca dos fãs para a Bolívia. Se preferir força máxima, como é a tendência, há o risco de sofrer baixas – e dá-lhe dor de cabeça na viagem. A história da cruz e da caldeirinha, ou do se ficar o bicho pega, se correr o bicho come, entre céu e inferno e outras expressões populares. Escolha a que lhe agradar.

O panorama para o Corinthians é um tanto diferente, mas com aspectos em comum com o rival. Assim como o São Paulo, não se admite tropeço, ao mesmo tempo em que se teme acidente de percurso. O campeão da América e do mundo levou sustos, com contusões – casos mais significativos os de Cássio, Paulinho, Pato e Renato Augusto. Este último fica de molho por semanas, o centroavante está pronto, apesar do temor de que sinta falta de ritmo (será só isso mesmo?). O goleiro se recompôs, da mesma forma que o meio-campista.

O Corinthians tem a seu favor a bonança com as conquistas magníficas de 2012 e com a perspectiva de depender só de si para seguir no rumo do bi continental. O entrave é a visita ao Millonarios. As chances de classificação, porém, são muito generosas.

Esta conversa toda me leva a algumas suposições. Arriscado não poupar ninguém a esta altura. O ideal é apelar só para aqueles que estejam tinindo. Independentemente de escalações, não imagino espetáculo morno. Insossos não têm sido os enfrentamentos desses gigantes. Tomara a tendência se mantenha e não sejamos frustrados com outro 0 a 0.

Aleluia! A malhação do Judas por tradição ocorre por volta de meio-dia do sábado de Aleluia. A pequena torcida do Palmeiras que esteve no Pacaembu por pouco não estendeu o ritual para o início da noite e teria como alvo o time todo, além de Gilson Kleina. Para salvação geral, Marcelo Oliveira fez em cima da hora o gol da vitória sobre o Linense. Que sufoco! Tomara seja a ressurreição palestrina.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo de Páscoa, dia 31/3/2013.)

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