Entrega total*

Antero Greco

11 de maio de 2014 | 13h31

Como diriam as comadres do Bom Retiro do tempo das cadeiras na calçada para um dedo de prosa e para atualizar fofocas, não quero botar lenha na fogueira, Deus que me perdoe! Mas este São Paulo e Corinthians de hoje pode ser quente – motivos para caprichar os dois têm, e de sobra. Fora a rivalidade e a busca de afirmação no Brasileiro, ficou esquisita a situação entre eles desde as rodadas finais da fase de classificação do Paulista.

Você lembra? O São Paulo perdeu do Ituano, no Morumbi e debaixo de um toró, e assim ajudou o Corinthians a ficar fora da etapa seguinte. Mano deu um sorriso amarelo e insinuou, para ficar num termo delicado, que o tropeço do rival fora curioso. Ainda apelou para os deuses da bola e sua insondável e infalível ira, ao dizer que certas coisas têm volta. O Muricy não gostou, claro, porém ficou na dele e não quis levar o assunto adiante.

O episódio rendeu papo furado durante dias, nas redes sociais, e reacendeu a discussão em torno das entregadas no futebol. Os dois treinadores disfarçaram na semana, e ficou aquela de “se ele me cumprimentar, não vou virar a cara”. Pode esperar que haverá microfones e câmeras de montão a seguir os passos da dupla ao entrar no gramado. Também vou ficar de olho, para ver se ficam de bem ou se continuam de mal. Essa não perco. Será que vai rolar uma saia-justa? Acho que não.

Tomara que esse ruído apimente a partida, no melhor dos sentidos. E qual seria? Futebol, jogo bem jogado, disputado com vontade, cada bola como se fosse a decisiva. Assim que dá gosto, dessa maneira os torcedores terão com que se divertir. Picuinhas, frases soltas, ironias lançadas ao vento, só servem para animar e não devem ser levadas ao pé da letra. O que importa é o pé na bola – e isso os dois times estão em condições de fazer bem feito.

O momento pende para o Corinthians. Por ligeira diferença, no olho mecânico e passível de ser anulada no clássico em Barueri. (A propósito: bobagem da diretoria tricolor levar o jogo para lá, com medo da intimidade alvinegra com o Pacaembu. O estádio paulistano é incomparável em charme e acolhimento). Depois de apresentação perto do sofrível no empate por 0 a 0 com o Atlético-MG na estreia, a turma de Mano Menezes se aprumou. As vitórias apareceram e, se não revelam uma equipe avassaladora, ao menos realçam equilíbrio. Detalhe que andou em falta. A defesa funciona (está invicta), o meio-campo se ajeitou e o ataque voltou a funcionar, embora nada fora do comum (três gols). Está bom para o começo da competição.

O São Paulo oscila, para não fugir da rotina da temporada. Começou com vitória sobre o Botafogo, mas na sequência empatou com Cruzeiro e Coritiba. No entretempo, perdeu e ganhou do CRB pela Copa do Brasil. Muricy se preocupa com ajustes na defesa, sobretudo em bolas pelo alto. O meio acelera e emperra, de acordo com a inspiração de Ganso. O ataque vai bem, obrigado (seis gols), ainda em busca da composição ideal, ora com Osvaldo e Luis Fabiano, ora com Ademilson, ora com os três. E com Pato a encaixar-se.

Pato e Jadson não jogam, como ocorrera no Estadual, por cláusula contratual. Repito o que escrevi na época: coisa ultrapassada, sem lugar no futebol moderno. Se ambos não estavam nos planos dos clubes de origem, e por isso foram cedidos por empréstimo, por que não os liberar? O confronto ganharia em colorido, emoção e entrega, palavra da moda. Ah, o Corinthians paga parte dos salários de Pato. Pois não deveria, uma vez que queria vê-lo longe, mesmo que por um tempo. Se esporte é negócio e entretenimento, nele não cabem atitudes da arca da velha.

Vai ou fica? O Santos até agora não decidiu o que quer do Brasileiro. Coleciona três empates (dois por 0 a 0 e outro por 1 a 1) e não empolga. Virou fumaça a ousadia do Paulistão? Oswaldo precisa chacoalhar o pessoal, e chacoalhar-se, já no jogo contra o lanterna Figueirense.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, domingo, dia 11/5/2014.)

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