Espaços novos. E vazios*

Antero Greco

13 de setembro de 2013 | 17h20

Há muitos e muitos anos assisto a toneladas de jogos pela televisão, por lazer e por obrigação profissional. Tantos que tem hora que embaralha tudo, ainda mais quando são dois ou três interessantes ao mesmo tempo. Até o controle remoto fica maluquinho. O exagero de ver balão subindo e descendo passou a me provocar, de uns meses para cá, uma estranha sensação: parece que os estádios construídos ou reformados para o Mundial ficaram iguais. Pelo menos na parte de baixo das arquibancadas e com a proximidade dos gramados. Fora as intermináveis fileiras de cadeiras vazias, sobretudo na área central.

Escrevo “parece” que se trata da mesma obra erguida em cidades diferentes, pois as imagens que o ângulo das câmeras de tevê nos transmitem induzem a esse julgamento. Quem esteve em diversas dessas modernas praças esportivas (não tem jeito de me acostumar a chamá-las de arenas) garante que não se assemelham, têm caráter próprio. Acredito e torço por isso. Como não tive, ainda, a fortuna de visitá-las, eu me atenho à visão proporcionada pela telinha. E esta é desalentadora.

A percepção é de solidão, imensa e escancarada por aqueles bancos novos e padronizados, à espera sabe-se lá de quem. O populacho foi empurrado para as curvas e bem lá pra cima. Cá embaixo, há lugares vagos, abandonados, sem calor humano. Pode conferir, a sequência é monótona e invariável, no Mineirão, no Maracanã, no Mané Garrincha, na Fonte Nova, no estádio de Recife. No máximo, tem uns gatos pingados a ocupar espaço agora considerado nobre. Essa turma fica até sem graça para vibrar, espernear, gritar, torcer.

Desanima constatar que, a nove meses do Mundial, nossas casas de cimento, aço e tinta frescos carecem de gente. Em vez de programas de incentivo para atrair público, entrou em ação um esquema para afastá-lo. Busca-se o emergente para tomar posse de zonas vips dos estádios e empurra-se a gentalha para os cantos que a tevê não mostra. O sujeito que tem grana é o alvo. Quem não aguentar pagar caro que se vire com o radinho de pilha. Atitudes como a do São Paulo, de baratear ingressos para chamar a torcida e apoiar o time, recebem críticas por banalizarem as tribunas e depreciarem o produto. Oras!

Futebol é bonito por definição e só fica lindo com estádios lotados, com bandeiras e barulho. Com pessoas lá, e não na poltrona de casa. Não venho com papo saudosista, mas hoje se festeja um Fla-Flu com 25 mil pagantes. Antes, era público de treino. O jogo arrastava pra mais de 100 mil ao Maracanã. Algum sábio pode observar que só os grandes jogos tinham plateia expressiva. Digamos que sim. Então, por que hoje diminuiu tanto a frequência até nos clássicos? Nem vale dizer que o Maracanã baixou a capacidade para 60 mil. Então, que se ocupem os 60 mil!

Violência, torcidas organizadas, horário impróprio, preços dos bilhetes, falta de transporte, lanches caros, preguiça, pay-per-view. Existem inúmeros motivos para explicar por que o brasileiro vai menos a campo de futebol, com as exceções de praxe. Isso, eu e você estamos carecas de saber. Frustra ver que não se faz nada para mudar a situação. Nem com a euforia do Mundial.

As imagens das arquibancadas novinhas e vazias dizem muito.

*(A parte principal de minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 13/9/2013.)

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