Esquecer o passado*

Antero Greco

11 de agosto de 2013 | 12h15

O mês de junho fez muito figurão da república tremer na base, por surpresa e temor com a cólera das multidões que se espalharam nas ruas do país para protestar contra tudo. Medidas oficiais foram apresentadas a toque de caixa, projetos mereceram apreciação parlamentar na base do vapt-vupt. Da noite para o dia, gente graúda se coçou como jamais o fizera na vida toda e tratou de mostrar serviço para acalmar a ira da turba.

Agora, vai – essa a sensação que restou da demonstração de impaciência popular. Vai mesmo? A poeira baixou um bocadinho e olha lá de volta temas que magoam a sensibilidade. O site Congresso em Foco retomou assunto que havia pipocado aqui e ali, meses atrás, e ficara adormecido em algum escaninho: circula no Legislativo um anteprojeto de lei que prevê o abatimento da dívida fiscal dos clubes de futebol. Se a proposta do deputado Vicente Cândido (PT-SP) for levada adiante, as agremiações ficarão livres de 90% dos R$ 3 bilhões em débitos que têm com órgãos do governo.

Espera aí, diz o Ministério do Esporte, que vê com bons olhos a medida salvadora. Não é bem assim. Não se trata de anistia ou perdão. A mão estendida não sairá de graça, de maneira nenhuma, onde já se viu?! Os clubes deverão pagar uma parte do montante em dinheiro, em grana viva. Em suaves prestações, é verdade. A perder de vista.

O restante, esse virá na forma de projetos sociais, com escolinhas de natação de atletismo abertas para as comunidades. A moçada que desejar terá meios de desenvolver aptidões em equipamentos e instalações bancadas pelos clubes. Agora o Brasil virará potência olímpica. Ou vai ou racha!

Grande parte da dívida, lembra o Congresso em Foco, é com INSS, FGTS, Imposto de Renda e outras taxas de varejo. Entraves com os quais diversos desses devedores estão acostumados de longa data. Coisa antiga, que vira e mexa vem à tona, diriam cartolas tarimbados em assuntos maçantes de tributos e congêneres. Em outras ocasiões, houve renegociação de dívida, com os desdobramentos de praxe: uns honraram, outros deram novos calotes, sob a alegação de que não havia como eliminar os zeros. O negócio é bola na rede.

Perdão é bom, todo mundo gosta e existe para entrar em ação. Fico a imaginar como se sentem, num momento desses, sociedades esportivas que se reviram para manter os livros-caixa em ordem e agora veem seus pares imprevidentes serem beneficiados. Diante dessa ação franciscana do governo com o mundo da bola, qual a sensação de médios, pequenos, micros e ínfimos empresários que mês a mês penam para fechar as contas e vivem assombrados pelos olhos argutos de fiscais? Tente um deles esquecer de pagar no vencimento uma tarifa sequer pra ver a dor de cabeça que terá.

Uma das alegações é a de que o futebol tem relevância nacional e internacional, gera empregos, movimenta a economia e agrega valor cultural. E Zé das Couves que perde o sono para andar na linha e se aperta para tocar o negócio dele adiante, com seu punhado de empregados? Esse é o quê?

Bem, o Ministério do Esporte esclarece que o “Proforte” (o nome do santo remédio) está em discussão e não tem versão final. Quando ela surgir, “será encaminhada para o Congresso Nacional para amplo debate.” Tomara – e que os políticos ponham a mão na consciência.

Tormenta. Nem deu tempo para o São Paulo espantar o jet leg da viagem de regresso do Japão, e já topa com o desafio de passar pela Portuguesa, no clássico de início da noite, no Canindé. Jogo de duas equipes tradicionais em turbulência e no fundo da classificação na Série A. Risco para ambos os lados – mas, pelo ineditismo da situação, a pressão maior recai sobre a turma tricolor. Com uma vitória apenas, nas últimas 15 apresentações, os rapazes de Paulo Autuori terão de dar um chega pra lá no cansaço e correr como nunca. É situação impiedosa, e eventual tropeço merece anistia. Aí, sim, vale.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 11/8/2013.)

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