Estaduais começam: quem ainda se comove com eles?

Antero Greco

15 de janeiro de 2011 | 13h20

A temporada começa pra valer neste fim de semana em alguns Estados, com a largada dos campeonatos locais. As disputas domésticas foram durante décadas a origem e o centro de rivalidades que duram até hoje. Os “grandes” do futebol brasileiro surgiram e se firmaram antes de mais nada com conquista de títulos e de simpatizantes nesses tira-teimas com os vizinhos. Os clubes do Interior, se não brigavam pela taça, pelo menos enchiam estádios com a presença de visitantes ilustres e equilibravam as contas com pencas de revelações.

Os estaduais tiveram papel importante, mas perderam peso. São vistos pelos times poderosos como aperitivos para banquetes como Copa do Brasil, Libertadores e Brasileirão. Tecnicamente, portanto, contam pouco. Mesmo assim,  provocam estragos nas equipes pretensiosas que vierem a tropeçar nas pernas. Ironias do futebol… No ano passado, por exemplo, Muricy Ramalho foi defenestrado no Palmeiras após goleada sofrida para o São Caetano. E Antonio Carlos, então treinador do Azulão, chamado para substituí-lo.

As pequenas agremiações se agarram aos estaduais como a chance de pagar as contas. Ou, como muitas estão nas mãos de empresários, para expor seus produtos em boas vitrines. Sou de uma geração que descobriu o prazer do futebol justamente ao acompanhar essas disputas. Ficava atento ao meu time, mas não perdia de vista o que poderiam apresentar Guarani, XV de Piracicaba, Botafogo, Comercial, Ferroviária, São Bento, Ponte Preta e tantos outros. Sabia que dali viriam os novos craques para ganhar a vida na capital ou no Santos. Perdi a conta dos duelos emocionantes que os “pequenos” travaram com os “grandes”.

Os estaduais estão moribundos por causa das obrigações de um calendário amplo e diversificado, mais universal e menos paroquial, e no qual contam os confrontos nacionais e não aqueles da esquina. Lamento que tenha dado nisso. O Paulistão, por exemplo, poderia bancar-se, se fosse disputado pelo menos em seis meses. Mas São Paulo é exceção, e ainda assim foi tragado, pois não há como ficar à parte. O quarteto mais forte (Santos, Corinthians, Palmeiras, São Paulo) prefere ter mais tempo para outros objetivos.

As fórmulas também variam – não existe uma igual à outra, no mínimo porque em cada canto há um número diferente de participantes. São todas tentativas de segurar a audiência, de tornar o estadual atrativo. O resultado, em geral, é decepcionante. De qualquer forma, ainda é nesse tipo de torneio que se pode sentir um gostinho de infância, de inocência perdida.

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